Projetos de restauração da mata ciliar beneficiam produtores no Vale do Paraíba - Digital Balde Branco
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Restauração de matas ciliares e de outras áreas abre novas perspectivas de benefícios aos produtores de leite

SUSTENTABILIDADE

Projetos de restauração da mata ciliar 

beneficiam produtores no Vale do Paraíba

São vários os benefícios propiciados pelo Programa, entre eles a possibilidade de renda com a neutralização de carbono, que agrega valor ao leite 

João Carlos de Faria, textos e fotos

Na lín­gua indí­ge­na, a pala­vra Man­ti­quei­ra sig­ni­fi­ca “gota d’água”, mas con­ta a len­da que o ter­mo tam­bém pode se tra­du­zir como “a ser­ra que cho­ra”, refe­rên­cia aos rios, ria­chos e cór­re­gos que do lado pau­lis­ta desa­guam no Rio Paraí­ba do Sul. Daí a sua impor­tân­cia como manan­ci­al de abas­te­ci­men­to de boa par­te da região vale-paraibana.

É nes­se con­tex­to que o Sin­di­ca­to Rural de Cru­zei­ro e Lavri­nhas tem atu­a­do, bus­can­do mos­trar a seus asso­ci­a­dos e à soci­e­da­de a impor­tân­cia de prá­ti­cas ambi­en­tais de pro­te­ção dos rios e nas­cen­tes, sob a res­pon­sa­bi­li­da­de do pro­du­tor rural.

O envol­vi­men­to da enti­da­de com a ques­tão ambi­en­tal já vem de mais de déca­da, mas, há cer­ca de três anos, con­jun­ta­men­te com as pre­fei­tu­ras de Cru­zei­ro e Lavri­nhas, ini­ci­ou ações visan­do à ade­qua­ção ambi­en­tal de pro­pri­e­da­des rurais ao Pro­gra­ma de Regu­la­ri­za­ção Ambi­en­tal (PRA).

O pro­gra­ma, deno­mi­na­do “Pro­te­tor da Man­ti­quei­ra”, tem pro­por­ci­o­na­do a res­tau­ra­ção da mata cili­ar nas micro baci­as dos Rios do Bra­ço, Água Lim­pa, Jacu e, futu­ra­men­te, na micro bacia do Bate­dor, envol­ven­do apro­xi­ma­da­men­te 20 pro­pri­e­da­des rurais.

Wander Bastos (e Gabriel, seu filho): O Vale do Paraíba é a vitrine, porque tem grande importância hídrica para região, que abriga dois dos maiores polos industriais do País

O total de inves­ti­men­tos é de apro­xi­ma­da­men­te R$ 2,7 milhões, recur­so que vem do Comi­tê de Baci­as Hidro­grá­fi­cas do Rio Paraí­ba do Sul (CBH-PS), por meio do Fun­do Esta­du­al de Recur­sos Hídri­cos (Fehi­dro), além das par­ce­ri­as com empre­sas e orga­nis­mos como a The Natu­re Con­ser­vancy (TNC) e WWF Brasil.

“O Vale do Paraí­ba é vitri­ne por­que é a região mais popu­lo­sa e mais indus­tri­a­li­za­da do País e tem uma impor­tân­cia hídri­ca mui­to sig­ni­fi­ca­ti­va para os dois mai­o­res cen­tros urba­nos bra­si­lei­ros. Temos mui­to a fazer nes­sa ques­tão ambi­en­tal”, afir­ma o pre­si­den­te do sin­di­ca­to, Wan­der Bastos.

Carlos Antônio da Silva: Tão importante quanto eu ser um produtor de leite é eu ser um produtor de água, algo que é essencial para a própria pecuária (mata ciliar sendo recuperada, no riacho que corta a Fazenda Santana)

Olhar para o futu­ro – O empre­sá­rio Car­los Anto­nio da Sil­va é pro­pri­e­tá­rio da Fazen­da San­ta­na e do sítio Wil­li­an Zap­pa, onde pro­duz 800 litros de lei­te por dia, com plan­tel de 35 vacas em lac­ta­ção e média de 23 litros/vaca, no sis­te­ma de semi­con­fi­na­men­to, ambos loca­li­za­dos no bair­ro Cape­la do Jacu, dis­tan­te cer­ca de 12 km de Lavri­nhas, ao pé da ser­ra da Man­ti­quei­ra, onde nas­ce o Rio Jacu, prin­ci­pal manan­ci­al de abas­te­ci­men­to da cidade. 

Na fazen­da, que fica pró­xi­ma ao sítio, a pecuá­ria de lei­te é con­sor­ci­a­da com gado de cor­te, sen­do que 35% apro­xi­ma­da­men­te de sua área é reser­va­da para bezer­ras e novi­lhas, des­de o des­ma­me até 30 dias antes da pri­mei­ra cria, e para vacas tam­bém, até a hora de parir. É nes­sa área, con­tor­na­da pelo Rio Jacu e aflu­en­tes, que está sen­do fei­ta, há cer­ca de um ano, a for­ma­ção de 9,2 hec­ta­res de mata ciliar. 

O resul­ta­do já é bas­tan­te níti­do quan­do se com­pa­ram as áre­as res­tau­ra­das com as demais: nas pri­mei­ras, há diver­sas espé­ci­es de árvo­res e já se vis­lum­bra a for­ma­ção de uma mata cili­ar den­sa e vari­a­da, enquan­to nas áre­as não res­tau­ra­das, o rio ain­da está total­men­te vulnerável.

“Você per­ce­be cla­ra­men­te a mar­gem sen­do pro­te­gi­da nas áre­as onde foi fei­to o plan­tio e visu­al­men­te já se veri­fi­ca o pro­gres­so que fize­mos”, afir­ma o pro­du­tor. Ele, que pre­ten­de ampli­ar o pro­je­to para outras áre­as, inclu­si­ve no sítio, enten­de que boa par­te dos pro­du­to­res ain­da é resis­ten­te à ideia. “Às vezes, por ter uma visão mui­to peque­na e olhar ape­nas para o pre­sen­te e não para o futu­ro”, des­ta­ca Silva.

O pro­du­tor, segun­do ele, deve se cons­ci­en­ti­zar de que a pro­te­ção des­sas áre­as é uma obri­ga­ção legal que terá que ser cum­pri­da e do seu papel de pro­du­zir de água. “Tão impor­tan­te quan­to eu ser um pro­du­tor de lei­te é eu ser um pro­du­tor de água, algo que é essen­ci­al para a pró­pria pecuá­ria”, ressalta.

Oti­mi­za­ção de áre­as para o lei­te – Já o pre­si­den­te do sin­di­ca­to, Wan­der Bas­tos, e seu filho Gabri­el Bas­tos pro­du­zem 700 litros de lei­te por dia na Fazen­da Ita­mi­rim, no bair­ro Embaú Mirim, em Cru­zei­ro, onde já recu­pe­rou 20 hec­ta­res de mata cili­ar. No seu caso, a área de pro­te­ção que mar­geia o Rio do Embaú Mirim foi reco­men­da­da pela Cetesb para que fos­se fei­ta ali a com­pen­sa­ção ambi­en­tal impos­ta a uma empre­sa da cidade. 

Depois de qua­se cin­co anos e com a mata já con­so­li­da­da, um dos resul­ta­dos mais posi­ti­vos, segun­do ele, é o apro­vei­ta­men­to ade­qua­do dado à vár­zea, que antes fica­va total­men­te inun­da­da nos perío­dos de chu­va, invi­a­bi­li­zan­do seu uso numa par­te con­si­de­rá­vel do ano. 

Hoje, a vár­zea de 32 mil metros, onde antes era plan­ta­do milho de sila­gem, com resul­ta­dos ques­ti­o­ná­veis, está divi­di­da em oito pique­tes de 4 mil metros cada, uti­li­za­dos no sis­te­ma de pas­te­jo rotacionado. 

“As enchen­tes se aca­ba­ram, a dre­na­gem da água melho­rou e o apro­vei­ta­men­to é mui­to melhor. Uti­li­zo a área com mais efi­ci­ên­cia, o que não ocor­ria com o milho ou o pas­to, como era fei­to. Ou seja, fui para um sis­te­ma inten­si­vo, com um cus­to mui­to menor”, afirma. 

Bas­tos apos­ta na sua pró­pria expe­ri­ên­cia como argu­men­to para con­ven­cer outros pro­du­to­res a ade­rir à ideia de sus­ten­ta­bi­li­da­de, mas enu­me­ra outras razões para isso. 

“O pri­mei­ro argu­men­to é econô­mi­co. Há dis­po­ni­bi­li­da­de de recur­sos para des­ti­nar ao pro­du­tor para recu­pe­rar aqui­lo que já seria obri­ga­do a fazer, mas sem que pre­ci­se gas­tar dinhei­ro do bol­so, além de poder ver­ti­ca­li­zar a pro­du­ção nes­sas áre­as com ati­vi­da­des como as fru­tí­fe­ras ou o turis­mo rural, pois a região é pro­pí­cia para isso”, diz.

Outra fon­te de ren­da ao pro­du­tor é a neu­tra­li­za­ção de car­bo­no, que agre­ga valor ao lei­te e pode ser fei­ta com o plan­tio de árvo­res ou a inte­gra­ção pecuá­ria-flo­res­ta ou pecuá­ria-lavou­ra-flo­res­ta. Mas Bas­tos enten­de que sin­di­ca­tos, asso­ci­a­ções e coo­pe­ra­ti­vas pre­ci­sam se envol­ver. “Senão, de novo, vai ter alguém ganhan­do nas nos­sas cos­tas. A pró­pria coo­pe­ra­ti­va que com­pra nos­so lei­te pode­ria nego­ci­ar o pro­du­to com car­bo­no neu­tra­li­za­do com as indústrias.”

Rio na Fazenda Itamirim, de Wander Bastos, com mata ciliar já recuperada, o que trouxe vários benefícios ao produtor

Núme­ros pro­mis­so­res – Soma­das as três micro baci­as onde o pro­je­to come­çou, são 152,4 hec­ta­res já recu­pe­ra­dos, com plan­tio de 77.225 mudas e 23 mil metros line­a­res de cer­cas. A média das áre­as recu­pe­ra­das por pro­pri­e­da­de é de 3 a 4 hec­ta­res, ao cus­to esti­ma­do de R$ 40 mil por hec­ta­re, ganho que é con­ta­bi­li­za­do a favor do pro­du­tor. Das 20 pro­pri­e­da­des envol­vi­das, dez são pro­du­to­ras de leite.

Na Fazen­da Bate­dor, área de recar­ga hídri­ca res­pon­sá­vel por 70% do abas­te­ci­men­to da cida­de de Cru­zei­ro, o inves­ti­men­to é de R$ 1,1 milhão, com o plan­tio de 44,4 mil mudas nati­vas, em 84 hec­ta­res, sen­do 74 hec­ta­res de enri­que­ci­men­to, com aden­sa­men­to de 4 x 4 metros e média de 625 mudas/hectare, e outros 10 hec­ta­res uti­li­zan­do a muvu­ca, téc­ni­ca nova para a seme­a­du­ra direta.

O enge­nhei­ro agrô­no­mo Fabi­a­no Had­dad Col­lard, res­pon­sá­vel téc­ni­co pelos pro­je­tos ambi­en­tais do Sin­di­ca­to Rural, rela­ta que a deman­da sur­giu há alguns anos, den­tro da Câma­ra Téc­ni­ca de Res­tau­ra­ção, do Comi­tê de Baci­as Hidro­grá­fi­cas do Rio Paraí­ba do Sul (CBH-PS).

O pri­mei­ro pro­je­to, con­ta ele, foi desen­vol­vi­do com a pre­fei­tu­ra de Lavri­nhas, na micro bacia do Rio do Bra­ço, a par­tir de abril de 2019 e pre­vi­são de tér­mi­no para em 2022, envol­ven­do qua­tro pro­pri­e­da­des rurais.

Fabiano Haddad Collard: Além da restauração e da adequação ambiental das propriedades ao CAR e ao PRA, vamos trabalhar o saneamento rural, com a instalação de fossas sépticas

O pró­xi­mo, em vias de se ini­ci­ar, será na micro bacia do Rio Bre­je­tu­ba, em Cru­zei­ro, com 92 hec­ta­res e dez pro­pri­e­da­des rurais, sen­do duas de lei­te. “Além da res­tau­ra­ção e da ade­qua­ção ambi­en­tal das pro­pri­e­da­des ao CAR e ao PRA, vamos tra­ba­lhar o sane­a­men­to rural, com a ins­ta­la­ção de fos­sas sép­ti­cas”, expli­ca. O pro­je­to vai cus­tar R$ 1,49 milhão. 

Segun­do o enge­nhei­ro agrô­no­mo, além da muvu­ca, será uti­li­za­do o plan­tio de aden­sa­men­to e enri­que­ci­men­to e de espé­ci­es nati­vas. Para ser inse­ri­da no pro­gra­ma, a pro­pri­e­da­de pas­sa por um diag­nós­ti­co e o pro­pri­e­tá­rio assi­na um ter­mo de ade­são. Depois, tudo é sub­me­ti­do ao Comi­tê de Baci­as e ao Ins­ti­tu­to de Pes­qui­sas Ambi­en­tais (IPA) para apro­va­ção e assi­na­tu­ra do contrato. 

Col­lard afir­ma que a ques­tão ambi­en­tal sofre ain­da resis­tên­cia de pro­du­to­res mais anti­gos, mas tem boa recep­ti­vi­da­de entre as novas gera­ções. “Vejo uma mudan­ça gra­da­ti­va nes­sa men­ta­li­da­de. Hoje, temos dois tipos de pro­du­to­res: os mais cons­ci­en­tes, que que­rem real­men­te fazer por ini­ci­a­ti­va pró­pria, inde­pen­den­te das exi­gên­ci­as legais, e aque­les que só fazem para cum­prir a lei. Mas isso está mudan­do por influên­cia dos filhos.” 

Os resul­ta­dos, segun­do ele, já são visí­veis, mas virão com mai­or impac­to no médio e lon­go pra­zo, com a redu­ção da ocor­rên­cia de asso­re­a­men­to, melhor qua­li­da­de e o aumen­to do volu­me da água pro­du­zi­da, além do apro­vei­ta­men­to da mata para o bem-estar ani­mal. “O que esta­mos fazen­do é aju­dar o pro­du­tor a se ajus­tar à lei e ain­da ganhar com isso.”

Investindo no carbono como fonte de renda


A mais recen­te inci­a­ti­va do Sin­di­ca­to Rural, com o pro­je­to “Pro­du­tor Sus­ten­tá­vel”, ampli­a­rá a atu­a­ção jun­to aos pro­du­to­res de lei­te (vai envol­ver 150 pro­pri­e­da­des). Esse pro­je­to con­ta com a par­ce­ria da Coo­pe­ra­ti­va de Lati­cí­ni­os de Cacho­ei­ra Pau­lis­ta (Cola­cap), Fede­ra­ção de Agri­cul­tu­ra do Esta­do de São Pau­lo (Faesp), e, nova­men­te, da The Natu­re Con­ser­vancy (TNC).

Nes­se novo mode­lo, além da ade­qua­ção ambi­en­tal das pro­pri­e­da­des rurais para que o pro­du­tor se regu­la­ri­ze com o PRA, com a res­tau­ra­ção das Áre­as de Pre­ser­va­ção Per­ma­nen­te (APPs) e Reser­va Legal, res­tau­ra­ção das áre­as de pro­te­ção, incluin­do as nas­cen­tes de água, have­rá tam­bém pro­ce­di­men­tos quan­to à melho­ria da qua­li­da­de do lei­te, sane­a­men­to – com a ins­ta­la­ção de fos­sas sép­ti­cas – e paga­men­to por ser­vi­ços ambi­en­tais de R$ 350/hectare/ano para cada pro­du­tor par­ti­ci­pan­te, num perío­do de dez anos, rela­ti­vo ao cré­di­to de carbono.

Estão pre­vis­tos cur­sos de cole­ta de semen­tes, iden­ti­fi­ca­ção de espé­ci­es nati­vas da Mata Atlân­ti­ca, além de pro­gra­mas de capa­ci­ta­ção do Senar e com a equi­pe téc­ni­ca da Colacap. 

“Pro­te­gen­do as nas­cen­tes, a gen­te fecha um ciclo do qual vamos ter um resul­ta­do real na pro­du­ção de água e isso vai ter um efei­to posi­ti­vo jun­to à popu­la­ção”, afir­ma Bastos. 

A TNC vai tra­ba­lhar com a con­du­ção de rege­ne­ran­tes e o cré­di­to de car­bo­no, enquan­to o Comi­tê de Baci­as Hidro­grá­fi­cas do Rio Paraí­ba do Sul (CBH-PS), por meio do Fehi­dro, entra­rá com recur­so para o reflo­res­ta­men­to com fru­tas nati­vas e a res­tau­ra­ção flo­res­tal em Áre­as de Pre­ser­va­ção Per­ma­nen­te (APPs). A par­ce­ria tam­bém inclui o Sebrae, a quem cabe­rá as ações de ges­tão e mercado.

Área de várzea (3,2 ha), antes pouco aproveitada, agora é pastagem, dividida em piquetes rotacionados, depois da recuperação da mata ciliar (Fazenda Itamirim)