Quarto maior produtor do país, Goiás tem potencial de avançar ainda mais - Digital Balde Branco
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Com a atuação do projeto ATeG-Senar/GO, cada vez mais as propriedades leiteiras estão se profissionalizando

LEITE EM GOIÁS

Quarto maior produtor do país,

Goiás tem potencial 

de avançar ainda mais

Um dos principais gargalos ainda é o baixo índice (20%) de propriedades leiteiras que contam com assistência técnica 

Erick Henrique

Goiás mos­tra a for­ça do cer­ra­do, com a pro­du­ção anu­al de mais de 3 bilhões de litros de lei­te, segun­do dados do IBGE. No entan­to, há mui­to tra­ba­lho pela fren­te para melho­rar os índi­ces zoo­téc­ni­cos e econô­mi­cos da mai­o­ria das fazen­das, pois ape­nas 20% uti­li­zam algum mode­lo de assis­tên­cia téc­ni­ca, de acor­do com espe­ci­a­lis­tas do Senar-GO

A pro­fis­si­o­na­li­za­ção das pro­pri­e­da­des lei­tei­ras em Goiás, sobre­tu­do nas prin­ci­pais baci­as, que ficam na região cen­tro-sul, foi res­pon­sá­vel pelo Esta­do atin­gir pro­du­ção de lei­te supe­ri­or a 3,1 bilhões de litros por ano, con­for­me o mais recen­te levan­ta­men­to do IBGE rea­li­za­do em 2019. 

Essa mar­ca colo­cou a “Capi­tal do Cer­ra­do” na quar­ta colo­ca­ção do ran­king entre os mai­o­res pro­du­to­res do Bra­sil. Isso não é pou­ca coi­sa. Entre­tan­to, a pro­du­ti­vi­da­de média ain­da é bai­xa, com 1.597,5 litros/vaca/ano, infe­ri­or à média bra­si­lei­ra, que é de 2.068,8 litros/vaca/ano.

“No últi­mo estu­do que fize­mos sobre o diag­nós­ti­co da pecuá­ria lei­tei­ra do Esta­do de Goiás, em 2019, cer­ca de 80% dos pro­du­to­res de lei­te ain­da não tinham nenhum mode­lo de assis­tên­cia téc­ni­ca, seja ele pri­va­do ou públi­co, em suas pro­pri­e­da­des. Isso reve­la o quan­to de tra­ba­lho pre­ci­sa ser fei­to para melho­rar ain­da mais a pro­du­ti­vi­da­de do setor”, expli­ca Gui­lher­me Bizi­no­to, geren­te de Assis­tên­cia Téc­ni­ca e Geren­ci­al (ATeG) do Senar-GO.

Guilherme Bizinoto: “Se juntássemos todo o nosso rebanho assistido, a média de produção vaca/dia seria de 8 litros a mais em comparação à do Estado de Goiás”

De acor­do com ges­tor da ATeG, exis­tem vári­os níveis de espe­ci­a­li­za­ção e de imple­men­ta­ção de tec­no­lo­gi­as nas fazen­das lei­tei­ras do Esta­do. “No nos­so caso, pres­tan­do assis­tên­cia téc­ni­ca, por exem­plo, temos pro­du­to­res que estão naque­la média bai­xa de pro­du­ção por ani­mal, até aque­les que atin­gem por vol­ta dos 10 mil/litros/vaca/ano. Ou seja, quan­do se pega o volu­me pro­du­zi­do em todo o Esta­do, divi­de-se pelo núme­ro de vacas orde­nha­das, pre­sen­tes nos 246 muni­cí­pi­os goi­a­nos, com vári­os níveis de qua­li­fi­ca­ção, obvi­a­men­te o resul­ta­do é de pro­du­ti­vi­da­de baixa.”

Segun­do Bizi­no­to, isso acon­te­ce tan­to em Goiás como no Bra­sil, por­que é neces­sá­rio melho­rar os índi­ces de pro­du­ti­vi­da­de por área e tam­bém por ani­mal. Des­sa for­ma, pon­tua, a dife­ren­ça com outros Esta­dos é mui­to peque­na. Ago­ra, com­pa­ra­dos aos prin­ci­pais paí­ses como Esta­dos Uni­dos, Cana­dá e Nova Zelân­dia, que são a refe­rên­cia na pro­du­ção lei­tei­ra mun­di­al, a mai­or par­te dei­xa mui­to a dese­jar nes­se quesito.

“Por­tan­to, o nos­so tra­ba­lho na ATeG é pegar essas fazen­das ine­fi­ci­en­tes do pon­to de vis­ta da pro­du­ção e pro­du­ti­vi­da­de, bem como do aspec­to econô­mi­co e ges­tão das ati­vi­da­des, e trans­for­má-las em um sis­te­ma mais atra­ti­vo, prin­ci­pal­men­te levan­do ren­ta­bi­li­da­de para o pro­du­tor de lei­te”, ava­lia o especialista.

Para Bizi­no­to, os prin­ci­pais gar­ga­los da pecuá­ria lei­tei­ra são a bai­xa pro­du­ti­vi­da­de, que deve ser resol­vi­da por meio da imple­men­ta­ção de tec­no­lo­gi­as como o uso do melho­ra­men­to gené­ti­co no reba­nho lei­tei­ro – que já é uma cons­tan­te na mai­o­ria das fazen­das pro­fis­si­o­na­li­za­das –; a pro­du­ti­vi­da­de por área/animal; a taxa de lota­ção das pas­ta­gens, entre outros. “Porém, vale res­sal­tar que por meio dos esfor­ços das uni­ver­si­da­des, da pró­pria Embra­pa, do Senai e Senar-GO, como uma ins­ti­tui­ção de exten­são, que trans­fe­re tec­no­lo­gia para o cam­po, isso já está sen­do resol­vi­do aos poucos.” 

Dian­te des­se cená­rio, os cin­co prin­cí­pi­os da ATeG são fun­da­men­tais. Come­çan­do com o diag­nós­ti­co indi­vi­du­a­li­za­do da pro­pri­e­da­de, em segui­da vem o pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co, uma impor­tan­te eta­pa de pac­tu­a­ção dos obje­ti­vos que ocor­re entre o pro­du­tor de lei­te e seu téc­ni­co de cam­po. Depois vem a ade­qua­ção tec­no­ló­gi­ca, quan­do são fei­tas as reco­men­da­ções pela equi­pe téc­ni­ca que geram efei­to dire­to em todo o sis­te­ma de produção. 

Metas específicas


Pro­du­tor

• Capa­ci­tar para o empre­en­de­do­ris­mo e a ges­tão do negó­cio
• Ele­var a ren­da e a pro­du­ti­vi­da­de bus­can­do efi­ci­ên­cia e efi­cá­cia
• Aumen­tar a ren­ta­bi­li­da­de
• Esta­be­le­cer o per­fil tec­no­ló­gi­co, soci­al e econô­mi­co
• Ela­bo­rar o pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co da propriedade

Técnico

• Pro­pi­ci­ar aces­so ao mer­ca­do de tra­ba­lho
• Desen­vol­ver a for­ma­ção con­ti­nu­a­da
• Remu­ne­rar por méri­to (ren­da fixa + variável)

(Fon­te: ATeG do Senar-GO)

Apesar do baixo índice de assistência técnica nas propriedades leiteiras, é grande o número que utiliza o melhoramento genético do rebanho

Capa­ci­ta­ção é fun­da­men­tal – Em quar­to lugar, sur­ge a capa­ci­ta­ção com­ple­men­tar, uti­li­zan­do a expe­ri­ên­cia do Senar, com os cur­sos de cur­ta e média dura­ção, que com­ple­men­tam os conhe­ci­men­tos tra­zi­dos pelo téc­ni­co de cam­po e auxi­li­am nas deci­sões toma­das pelo pecu­a­ris­ta. Fecha-se com a sis­te­má­ti­ca de resul­ta­dos, que é o con­jun­to de fer­ra­men­tas ope­ra­ci­o­nais e tec­no­ló­gi­cas desen­vol­vi­do pelo Senar-GO que apon­tam para o alcan­ce do resul­ta­do ou sina­li­zam a neces­si­da­de de ajus­tes no pla­ne­ja­men­to da pro­pri­e­da­de leiteira.

“A par­tir daí, o exten­si­o­nis­ta ela­bo­ra, jun­ta­men­te com o pro­du­tor, um pla­ne­ja­men­to para melho­rar a pro­du­ção de lei­te, mas nem sem­pre isso acon­te­ce rapi­da­men­te. Quan­do, porém, se melho­ra a pro­du­ti­vi­da­de, todos os indi­ca­do­res zoo­téc­ni­cos e econô­mi­cos são afe­ta­dos de for­ma posi­ti­va. Com isso, faze­mos um balan­ço des­ses dados e os trans­for­ma­mos em núme­ros”, diz Bizinoto.

Além dis­so, con­for­me ele des­ta­ca, quan­do a equi­pe de cam­po do Senar come­ça os tra­ba­lhos de assis­tên­cia ao pro­du­tor de lei­te, nota-se que a mai­o­ria dos pecu­a­ris­tas não sabe o cus­to de pro­du­ção, tam­pou­co a sua mar­gem bru­ta, líqui­da ou lucro total, quan­do são reti­ra­dos todos os cus­tos envol­vi­dos na ati­vi­da­de. “Feliz­men­te, a gen­te vê que o nos­so pro­du­tor, ao fim do ciclo de dois anos, já sabe cal­cu­lar os cus­tos de pro­du­ção, qual com­po­si­ção afe­ta mais na sua atividade.”

Em Goiás são oito cadei­as pro­du­ti­vas do agro­ne­gó­cio que o Senar aten­de. Na ATeG, des­de que se ini­ci­ou o pro­je­to, em 2016, já foram aten­di­dos cer­ca de 8 mil pro­du­to­res. Atu­al­men­te, a equi­pe pres­ta ser­vi­ço para 3 mil pes­so­as, den­tre elas 1.700 são pro­du­to­res de lei­te, e isso sem­pre foi assim. No míni­mo, con­for­me Bizi­no­to, meta­de dos pro­du­to­res assis­ti­dos pelo pro­gra­ma é de bovi­no­cul­to­res de lei­te. Con­tu­do, a meta da ins­ti­tui­ção é encer­rar o ano de 2021 com cer­ca de 5 mil pro­du­to­res ati­vos na iniciativa.

“Hoje, só para ilus­trar, em ter­mos de pro­du­ção de lei­te, se a média no Esta­do é de 1.597,5/litros/vaca/ano, se cal­cu­lar­mos uma lac­ta­ção de 365 dias, dá uma média diá­ria de 5/litros/vaca, já a média dos nos­sos pro­du­to­res assis­ti­dos pelo Senar-GO figu­ra em 13/litros/vaca/ano. A vaca só pro­duz essa quan­ti­da­de? Cla­ro que não, pois ela tem o pico de lac­ta­ção, tan­to que temos fazen­das em que deter­mi­na­do lote pro­duz cer­ca de 26 litros/leite/dia. Des­sa for­ma, se jun­tás­se­mos todo o nos­so reba­nho assis­ti­do, o volu­me de pro­du­ção é de 8 litros de lei­te a mais em com­pa­ra­ção à média do Esta­do de Goiás como um todo”, des­ta­ca Bizinoto.

Ori­en­ta­ção da assis­tên­cia téc­ni­ca – Um exem­plo que repre­sen­ta a evo­lu­ção de mui­tos pro­du­to­res goi­a­nos que incre­men­ta­ram a ati­vi­da­de lei­tei­ra é o pro­du­tor Wil­son Braz da Cos­ta, pro­pri­e­tá­rio da Fazen­da Pas­ti­nho, em Aná­po­lis (GO). Com ori­en­ta­ção da ATeG, há seis anos na pro­du­ção de lei­te, ele rela­ta ter pas­sa­do por maus boca­dos nos últi­mos anos, che­gan­do até a pen­sar em desis­tir da ati­vi­da­de. Em 2018, deses­ti­mu­la­do, este­ve pres­tes a ven­der o reba­nho e encer­rar os con­tra­tos. Isso por­que os gas­tos esta­vam mai­o­res que os lucros na pro­du­ção – que gira­va em tor­no de 4 mil litros de lei­te por mês, em sua pro­pri­e­da­de de 74 hec­ta­res. Porém, em 2019, come­çou a vis­lum­brar um futu­ro mais pro­mis­sor quan­do rece­beu a visi­ta do téc­ni­co de cam­po do Senar-GO, André Milhar­des, que ava­li­ou ins­ta­la­ções, estru­tu­ra, gené­ti­ca do reba­nho, área de uti­li­za­ção para a ati­vi­da­de, loca­li­za­ção e lhe fez ver que a fazen­da tinha um gran­de poten­ci­al, com base num pro­je­to de reestruturação.

Wilson Braz Costa: Embora os desafios sejam muitos, com a atividade bem ajustada é possível ter receita líquida satisfatória

André Milhardes: A partir do diagnóstico feito na Fazenda Pastinho, de Wilson Braz Costa, traçamos junto com o produtor o planejamento para implementação de melhorias

“Melho­ra­mos mui­to a pro­du­ção de volu­mo­so. Antes da ATeG, a pro­du­ti­vi­da­de da sila­gem de milho era de 30 t/hectare, che­ga­mos ao fim do pri­mei­ro ano de assis­tên­cia, na safra 2019/20, com a pro­du­ti­vi­da­de de 45 t/hectare e na safra 2020/21 com a mar­ca de 62,5 t por hec­ta­re”, rela­ta o pro­du­tor goiano.

Além dis­so, Cos­ta tam­bém for­mou uma área com pique­tes irri­ga­dos de tif­ton 85, e outra área com capim BRS Quê­nia. “Isso são ape­nas exem­plos de como con­se­gui­mos aumen­tar a pro­du­ti­vi­da­de do reba­nho, bai­xan­do o cus­to, ape­nas uti­li­zan­do o que já tinha de dis­po­ní­vel na propriedade.”

Atu­al­men­te o pro­du­tor está com 17 ani­mais em lac­ta­ção, pro­du­zin­do em média 24 litros de lei­te por dia em duas orde­nhas. “Antes da assis­tên­cia téc­ni­ca, esta­va com a pro­du­ção de lei­te men­sal de cer­ca de 4 mil litros e fecha­mos o pri­mei­ro ano de ATeG com cer­ca de 8 mil/litros/mês. E, no fim do ciclo de dois anos, já pas­sa­va de 12 mil/litros/mês”, come­mo­ra o pecu­a­ris­ta de Anápolis.

Segun­do ele, a assis­tên­cia téc­ni­ca do Senar-GO foi deter­mi­nan­te para a sobre­vi­vên­cia na ati­vi­da­de lei­tei­ra e não somen­te isso: a ren­da do lei­te já pos­si­bi­li­tou a com­pra de um tan­que res­fri­a­dor com capa­ci­da­de de 2.000 litros, ensi­la­dei­ra, e a cons­tru­ção de um silo trin­chei­ra para arma­ze­nar o volumoso.

“Estou cons­truin­do pis­ta de tra­ta­men­to, já visan­do com­prar um vagão for­ra­gei­ro e outros imple­men­tos para oti­mi­zar a pro­du­ção. Tenho como meta che­gar ao fim de 2021 com pro­du­ção diá­ria de 600 litros/leite/dia, ou seja, 18 mil/litros leite/mês. Embo­ra os desa­fi­os sejam mui­tos, com ati­vi­da­de bem ajus­ta­da é pos­sí­vel ter recei­ta líqui­da satis­fa­tó­ria. Enfim, tudo isso gra­ças à assis­tên­cia téc­ni­ca e geren­ci­al do Senar, que não somen­te apon­tou a dire­ção para minha ati­vi­da­de, como tam­bém cami­nhou jun­to até que os resul­ta­dos posi­ti­vos se con­cre­ti­zas­sem”, arre­ma­ta Costa.

Cadeia do leite em GO


• Pro­duz 3,1 bilhões de litros de lei­te, repre­sen­ta 10,6% da pro­du­ção nacional

• 70 mil pro­pri­e­da­des têm o pro­du­to como prin­ci­pal fio con­du­tor da fazenda

• As mai­o­res baci­as lei­tei­ras estão con­cen­tra­das nos muni­cí­pi­os de Pira­can­ju­ba, Ori­zo­na, Jataí, Rio Ver­de e Morrinhos

• As regiões sul e cen­tro são as mai­o­res res­pon­sá­veis pela pro­du­ção lei­tei­ra do Esta­do, com 46,9% e 33,4, respectivamente

• 4ª mai­or bacia lei­tei­ra do País

• Ape­nas 20% dos pro­du­to­res uti­li­zam algum tipo de assis­tên­cia técnica

• Senar-GO, por meio da ATeG, pres­ta assis­tên­cia para 1.700 produtores

• Goiás pos­sui cer­ca de 200 laticínios

• Há 12 lati­cí­ni­os goi­a­nos habi­li­ta­dos a expor­tar, con­for­me rela­ção do Minis­té­rio da Agricultura

• Expor­ta­ções de lác­te­os de Goiás movi­men­ta­ram US$ 312.113, em 2019

 

(Fon­tes: IBGE, Minis­té­rio da Eco­no­mia, Senar/GO, Secre­ta­ria de Agri­cul­tu­ra, Pecuá­ria e Abastecimento-Seapa)

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