Recalculando a rota da vida para sobreviver - Digital Balde Branco

A família (da esq. para a dir.): Paulo Jacob e Glaci; o cunhado Henrique com o filho Matheus no colo; a irmã Martina e sua filha, Natieli. Na cadeira de rodas, Paulinho, ladeado pelos sobrinhos Usain e Simael, de férias

SUPERAÇÃO

RECALCULANDO a rota da vida para SOBREVIVER

Mesmo enfrentando limitações físicas na lida da produção leiteira, produtor contorna as dificuldades e consegue, trabalhando duro, quadruplicar a produção do sítio da família

Ângela Balen

Quem visi­ta pela pri­mei­ra vez a pro­pri­e­da­de da famí­lia Birck, loca­li­za­da na linha São Jacó, no muni­cí­pio de Estre­la (RS), não ima­gi­na as revi­ra­vol­tas que essa famí­lia já viveu. Mas o que mar­ca e sim­bo­li­za sua saga é mui­to tra­ba­lho e deter­mi­na­ção. Ori­gi­nal­men­te, Pau­lo Jacob Birck adqui­riu 12,9 hec­ta­res em 1979, onde cons­truiu um gal­pão que ser­via de resi­dên­cia para a famí­lia, abri­go de equi­pa­men­tos e local de orde­nha de nove vacas. Naque­la épo­ca, ele tra­ba­lha­va no cor­te de mato e pres­ta­va ser­vi­ços para outras propriedades. 

Qua­tro anos depois, cons­truiu um novo gal­pão de madei­ra com can­zil e ester­quei­ra, e já dis­pu­nha de orde­nha­dei­ra mecâ­ni­ca. A nova resi­dên­cia foi cons­truí­da em 1984. O pai tra­ba­lha­va fora, pres­tan­do ser­vi­ço com um peque­no tra­tor, enquan­to a espo­sa, Gla­ci, jun­ta­men­te com os filhos de oito e nove anos, cor­ta­vam manu­al­men­te milho e, com o auxí­lio de uma car­ro­ça, trans­por­ta­vam o pas­to pica­do para tra­tar os pou­cos ani­mais que possuíam. 

Uma das tarefas de Paulinho é também empurrar o alimento no cocho

Em 1994, já con­ta­vam com 21 vacas, porém pas­sa­ram pelo des­gos­to de pre­ci­sar aba­tê-las todas, pois qua­tro delas foram diag­nos­ti­ca­das com tuber­cu­lo­se. Ante tal situ­a­ção, deci­di­ram ain­da fazer um vazio sani­tá­rio, inclu­si­ve remo­ven­do todas as bai­as de madei­ra. Após o impac­to ini­ci­al, resol­ve­ram con­ti­nu­ar na ati­vi­da­de lei­tei­ra e, então, come­ça­ram a com­prar bezer­ras de pro­pri­e­da­des de exce­len­te genética. 

Em 1997, cons­truí­ram a sala de orde­nha que é uti­li­za­da até hoje. O filho Pau­lo Rober­to, conhe­ci­do por Pau­li­nho, ao retor­nar do ser­vi­ço mili­tar no ano 2000, deci­diu per­ma­ne­cer jun­to à famí­lia na pro­pri­e­da­de rural, que naque­la épo­ca abri­ga­va cer­ca de 18 vacas, que pro­du­zi­am 200 litros dia, em média, sen­do toca­da por Pau­lo Jacob, Gla­ci e Paulinho. 

SEM DESANIMAR COM SUA CONDIÇÃO, PAULINHO ENCARA O DESAFIO DE INCREMENTAR A PRODUÇÃO LEITEIRA DO SÍTIO

Pau­li­nho fez cur­so de inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al, quan­do come­çou o melho­ra­men­to gené­ti­co do pró­prio reba­nho. Eis que em novem­bro de 2003, quan­do a pro­pri­e­da­de já alcan­ça­va a pro­du­ção de 500 litros de lei­te por dia, ao “puxar” a últi­ma car­ga de ester­co do aviá­rio da pro­pri­e­da­de vizi­nha, o rebo­que com mais de seis tone­la­das de ester­co cedeu em um acli­ve da estra­da da linha São Jacó. Pre­o­cu­pa­do em não atra­pa­lhar o trân­si­to, pediu ao pai que bus­cas­se um maca­co hidráu­li­co for­te o sufi­ci­en­te para erguer o rebo­que com a carga. 

Quan­do reti­ra­va o últi­mo para­fu­so do eixo, que pre­ten­dia sol­dar e reco­lo­car para ter­mi­nar o ser­vi­ço, o rebo­que cedeu e caiu sobre seu cor­po, pren­den­do as per­nas e a colu­na do jovem pro­du­tor. Nos 25 minu­tos em que espe­rou pelos bom­bei­ros e o guin­cho para o socor­ro, per­ma­ne­ceu cons­ci­en­te, mas já ima­gi­na­va que algo gra­ve havia acon­te­ci­do com seu cor­po. Remo­vi­do ao hos­pi­tal, foram 30 dias de UTI e duas cirur­gi­as nas vér­te­bras, mes­mo assim aque­le jovem tão ati­vo ficou paraplégico. 

No reco­me­ço, enxer­gan­do a vida de outra for­ma, adap­tou-se e cele­brou cada peque­na con­quis­ta nos desa­fi­os para supe­rar cada empe­ci­lho que sua nova con­di­ção lhe apre­sen­ta­va. E foram mui­tos, mas sem­pre enca­ra­dos com deter­mi­na­ção. O cadei­ran­te Pau­li­nho dei­xou a pro­pri­e­da­de para fazer o cur­so de téc­ni­co em Meio Ambi­en­te, con­quis­tan­do, em 2012, o diplo­ma de tec­nó­lo­go em Agri­cul­tu­ra Fami­li­ar e Sus­ten­ta­bi­li­da­de, pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral de San­ta Maria (RS).

Dono de novos conhe­ci­men­tos, ele se sen­tiu incon­for­ma­do com o fato de que a pro­pri­e­da­de da famí­lia per­ma­ne­cia pro­du­zin­do os mes­mos 500 litros por dia dez anos após o aci­den­te que mudou sua con­di­ção de mobi­li­da­de. Então, deci­diu vol­tar à pro­pri­e­da­de para aju­dar a família. 

Estar na cadeira de rodas não é empecilho para fazer a ordenha bem feita; na foto ao lado, a barra para apoiar o braço durante a operação

Retor­nan­do para a fazen­da, em 2013, Pau­li­nho diz que enve­re­dou mais para a área de pla­ne­jar e pen­sar a pro­pri­e­da­de. O pri­mei­ro pas­so foi cha­mar seus dois irmãos, Pedro e Mar­ti­na, que tra­ba­lha­vam em pro­pri­e­da­des pró­xi­mas, para vol­ta­rem ao sítio da famí­lia, para, jun­tos, aju­da­rem o pai a desen­vol­ve­rem a pro­pri­e­da­de. Mar­ti­na, jun­ta­men­te com seu mari­do, Eri Hen­ri­que, foram morar no sítio da famí­lia Birck, onde rea­li­zam orde­nha, cria e recria das bezer­ras e novi­lhas e todo o acom­pa­nha­men­to dos ani­mais. Pedro con­ti­nu­ou resi­din­do em sua pro­pri­e­da­de, onde tem cri­a­tó­rio de suí­nos, a pou­cos quilô­me­tros de dis­tân­cia da ter­ra da famí­lia Birck, auxi­lia no tra­to diá­rio dos ani­mais e nos tra­ba­lhos de lavou­ra. Ao todo, plan­tam 45 hec­ta­res de milho para sila­gem, em áre­as pró­pri­as e alugadas. 

Pau­li­nho Birck sem­pre foi uma pes­soa ati­va e con­ti­nua como sem­pre foi em uma cadei­ra de rodas. Mes­mo com limi­ta­ções físi­cas, exe­cu­ta habil­men­te as ati­vi­da­des que lhe cabem. Para tan­to, adap­tou uma ram­pa em duas motos, for­man­do um tri­ci­clo, que lhe per­mi­te subir, des­cer e ter aces­so com a cadei­ra de rodas a todas as ins­ta­la­ções pecuárias. 

Bus­ca de conhe­ci­men­tos — Para pros­se­guir com seu pla­no de incre­men­tar a pro­du­ção lei­tei­ra no sítio, ele bus­cou o apoio da Ema­ter do muni­cí­pio, que o ori­en­tou sobre cri­a­ção de bezer­ras, melho­ra­men­to gené­ti­co, higi­e­ne e die­ta dos ani­mais, e em pro­je­tos de cré­di­to para cons­tru­ção de ins­ta­la­ções que per­mi­ti­ram aumen­tar e con­fi­nar o reba­nho. Com­prou um tra­tor adap­ta­do que lhe pos­si­bi­li­ta tra­ba­lhar na lavoura. 

Tam­bém auxi­lia na orde­nha das 72 vacas que pro­du­zem, na média do ano, 2.000 litros de lei­te por dia. Os cui­da­dos com a qua­li­da­de do lei­te jamais são negli­gen­ci­a­dos: a CBT é de 7.000 ufc/ml, enquan­to a CCS gira em tor­no das 300 mil CCS/ml. Em resu­mo, com seu retor­no à pro­pri­e­da­de, a pro­du­ção de lei­te quadruplicou. 

Na sala de orde­nha, foram fei­tas algu­mas adap­ta­ções que ele mes­mo ins­ta­lou, como uma bar­ra estra­te­gi­ca­men­te colo­ca­da que lhe ser­ve de apoio do bra­ço enquan­to faz a desin­fec­ção dos tetos das vacas, colo­ca e reti­ra as tetei­ras da orde­nha­dei­ra, assim como a lim­pe­za e desin­fec­ção diá­ria da orde­nha­dei­ra. E seu tra­ba­lho não para aí: tam­bém faz o cas­que­a­men­to das vacas no tron­co, empur­ra a comi­da das vacas no gal­pão de ali­men­ta­ção. Em épo­ca de ensi­la­gem, tra­ba­lha no tra­tor adap­ta­do efe­tu­an­do a com­pac­ta­ção da sila­gem, entre outras ações. 

Um pon­to que faz ques­tão de enfa­ti­zar é a ado­ção das boas prá­ti­cas de pro­du­ção (BPF), que trou­xe óti­mos bene­fí­ci­os para o sis­te­ma. E tam­bém é o res­pon­sá­vel pela ges­tão e por todo o pla­ne­ja­men­to da pro­pri­e­da­de, paga­men­to e orga­ni­za­ção financeira. 

Pau­li­nho tam­bém é mui­to atu­an­te fora do sítio. É repre­sen­tan­te de uma coo­pe­ra­ti­va local e fre­quen­te­men­te, após a orde­nha, visi­ta pro­du­to­res, diri­gin­do seu car­ro adap­ta­do para todo can­to. Por qua­tro anos, foi o pre­si­den­te da “Vovo­lân­dia” (uma casa geriá­tri­ca de resi­dên­cia dos ido­sos da região). Atu­al­men­te ocu­pa o car­go de vice-pre­si­den­te, pra­ti­ca diver­sos espor­tes como cano­a­gem, tiro espor­ti­vo na soci­e­da­de ita­li­a­na, bas­que­te com a equi­pe de cadei­ran­tes de Laje­a­do, muni­cí­pio vizi­nho, é trei­na­dor do time de fute­bol em que anti­ga­men­te joga­va com os ami­gos. Tam­bém foi vere­a­dor de sua cida­de e cri­ou leis que apoi­am a per­ma­nên­cia do jovem no campo. 

Pau­li­nho con­ta que tem um prin­cí­pio de vida que está base de suas ati­vi­da­des: “Quan­do olho para a fren­te, não vejo a minha cadei­ra de rodas, só vejo o que pre­ci­sa ser fei­to, então vou lá e faço”, acres­cen­tan­do que nun­ca teve depres­são ou pre­ci­sou de psi­có­lo­go. “O que tive foi o apoio da minha famí­lia e dos meus ami­gos, que nun­ca tive­ram ver­go­nha de mim, e sem­pre me apoiaram.” 

O triciclo, construído por Paulinho, com rampa para acoplar a cadeira de rodas, que lhe permite percorrer toda a propriedade

Na con­ver­sa com a famí­lia Birck, cons­ta­ta­mos que todos bus­cam o mes­mo obje­ti­vo. Mar­ti­na fala que o irmão mos­trou que nada é impos­sí­vel de ser rea­li­za­do, “não pode­mos recla­mar de nada, ele nos mos­trou que não pre­ci­sa­mos recla­mar”. Já o pai diver­te-se con­tan­do que às vezes o celu­lar toca, é Pau­li­nho ligan­do da lavou­ra, onde vai fazer vis­to­ri­as, de lá o filho pede ao pai que vá aju­dá-lo a desa­to­lar o tri­ci­clo adap­ta­do para a cadei­ra de rodas. Nes­ses momen­tos se per­ce­be quão uni­dos são e como se tor­na­ram peças inter­li­ga­das de uma engre­na­gem de sucesso. 

Per­gun­ta­do sobre o futu­ro da pro­pri­e­da­de, o pro­du­tor cadei­ran­te, de recém-com­ple­ta­dos 40 anos, diz que pre­ten­de aumen­tar a pro­du­ti­vi­da­de por ani­mal, pro­fis­si­o­na­li­zan­do cada vez mais ati­vi­da­de. O que já com­pro­vou que é capaz, jun­to com a famí­lia. Olhan­do para um futu­ro não dis­tan­te, no radar de seus pla­nos, encai­xa-se a ins­ta­la­ção de orde­nha robo­ti­za­da, porém – faz ques­tão de fri­sar – cada deci­são é “colo­ca­da na mesa e dis­cu­ti­da com a família”. 

Sobre o que­si­to difi­cul­da­des, ele diz: “A mai­or difi­cul­da­de na vida é a fal­ta de apoio da famí­lia. E esse não é o meu caso, pois a nos­sa união, soma­da às outras coi­sas, fazem a nos­sa vida ter sen­ti­do, nos fazem seguir em fren­te todo o dia”. 

Ângela Balen é médica veterinária, consultora do Sebrae-RS e instrutora do Senar-RS

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