Saúde e bem-estar das crianças agora, capacidade mental dos adultos no futuro - Digital Balde Branco

TENDÊNCIAS

Pedro Braga Arcuri 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

  As esco­las estão em uma posi­ção úni­ca para influ­en­ci­ar as esco­lhas ali­men­ta­res das cri­an­ças por­que mui­tas con­tam com a meren­da esco­lar como sua prin­ci­pal fon­te de nutri­ção

Saúde e bem-estar das crianças agora, capacidade mental dos adultos no futuro

Dias atrás, a Bal­de Bran­co e vári­os outros veí­cu­los impor­tan­tes da mídia divul­ga­ram a deci­são do gover­no fede­ral de apli­car este ano R$ 500 milhões no Pro­gra­ma de Aqui­si­ção de Ali­men­tos, o PAA. Des­tes, R$ 130 milhões são para a com­pra de lei­te, a fim de garan­tir o for­ne­ci­men­to para a popu­la­ção em difi­cul­da­de por cau­sa do agra­va­men­to da situ­a­ção econô­mi­ca, em razão da pan­de­mia de covid-19. Ins­ti­tui­ções como a Con­fe­de­ra­ção da Agri­cul­tu­ra e Pecuá­ria do Bra­sil (CNA) e a Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Pro­du­to­res de Lei­te (Abra­lei­te) sau­da­ram a ini­ci­a­ti­va, pela impor­tân­cia des­se recur­so no apoio a peque­nos produtores.

O PAA é uma polí­ti­ca públi­ca bem suce­di­da do Esta­do bra­si­lei­ro, segui­do por vári­os outros paí­ses. Foi cri­a­do em 2003, com o obje­ti­vo de com­prar pro­du­tos da agri­cul­tu­ra fami­li­ar para dis­tri­buí-los a enti­da­des filan­tró­pi­cas e famí­li­as caren­tes. O PAA Lei­te bene­fi­cia milha­res de famí­li­as resi­den­tes nos esta­dos do Nor­des­te e no nor­te de Minas Gerais, com­pos­tas por ges­tan­tes; cri­an­ças de dois a sete anos de ida­de; nutri­zes até seis meses após o par­to e que ama­men­tam e pes­so­as com 60 anos ou mais. 

Uma outra polí­ti­ca públi­ca envol­ven­do o con­su­mo de lei­te e que tem efei­to impor­tan­te no estí­mu­lo e na esta­bi­li­da­de da pro­du­ção é a pro­mo­ção do con­su­mo de lei­te e deri­va­dos em esco­las públi­cas. No Japão, é man­da­tó­rio para os estu­dan­tes. Na União Euro­peia, a par­tir de 2017, o regi­me de fru­tas, legu­mes e lei­te nas esco­las apoia a dis­tri­bui­ção de pro­du­tos, medi­das edu­ca­ci­o­nais e medi­das de infor­ma­ção do jar­dim de infân­cia ao ensi­no médio, res­pei­tan­do-se as dife­ren­ças cul­tu­rais e pro­mo­ven­do recei­tas típi­cas de cada país. Nos Esta­dos Uni­dos, este tipo de pro­gra­ma fun­ci­o­na inin­ter­rup­ta­men­te des­de 1954.

As esco­las estão em uma posi­ção úni­ca para influ­en­ci­ar as esco­lhas ali­men­ta­res das cri­an­ças por­que mui­tas con­tam com a meren­da esco­lar como sua prin­ci­pal fon­te de nutri­ção. Em todos os paí­ses, incluin­do o Bra­sil, as refei­ções são pla­ne­ja­das por nutri­ci­o­nis­tas. No Bra­sil, o Pro­gra­ma Naci­o­nal de Ali­men­ta­ção Esco­lar (PNAE) aten­de alu­nos de toda a edu­ca­ção bási­ca matri­cu­la­dos em esco­las públi­cas, filan­tró­pi­cas e em enti­da­des comu­ni­tá­ri­as con­ve­ni­a­das com o poder públi­co, em cum­pri­men­to à Cons­ti­tui­ção Fede­ral. Com a pan­de­mia, há dis­tri­bui­ção para as famí­li­as dos alunos.

Essas polí­ti­cas públi­cas têm tam­bém cla­ros efei­tos nas cadei­as pro­du­ti­vas, por­que as com­pras gover­na­men­tais auxi­li­am como regu­la­do­res do mer­ca­do. Na situ­a­ção atu­al, em que o ele­va­do desem­pre­go urba­no e a que­da dos salá­ri­os resul­tam na per­da do poder aqui­si­ti­vo das famí­li­as, a inter­ven­ção do Esta­do com as polí­ti­cas públi­cas des­cri­tas, com o auxí­lio emer­gen­ci­al e outras ado­ta­das pelo gover­no bra­si­lei­ro, são ações efe­ti­vas para enfren­tar a pan­de­mia de covid-19. 

Os pro­gra­mas de ali­men­ta­ção ele­vam o con­su­mo domés­ti­co de pro­du­tos agrí­co­las pro­du­zi­dos no País e são, por­tan­to, garan­ti­do­res da segu­ran­ça naci­o­nal, por­que pro­mo­vem a saú­de e o bem-estar das cri­an­ças ago­ra, e da capa­ci­da­de men­tal dos adul­tos do futu­ro.  São a garan­tia de apren­di­za­do nas esco­las e a capa­ci­da­de de mani­pu­lar equi­pa­men­tos com­ple­xos, na vida adul­ta. Além dis­so, apoi­am coo­pe­ra­ti­vas, indús­tri­as, peque­nas empre­sas e pro­du­to­res de lei­te, nes­te momen­to de incer­te­zas econô­mi­cas.  E como “cere­ja no bolo”, o PAA e o PNAE pro­mo­vem algo mui­to moder­no, a eco­no­mia cir­cu­lar, que vem a ser a com­pra e o con­su­mo de pro­du­tos pro­du­zi­dos localmente.

A pan­de­mia é uma catás­tro­fe, mas pode ser a opor­tu­ni­da­de de mudan­ça de pers­pec­ti­va e de for­ta­le­cer o for­ne­ci­men­to de lei­te de boa qua­li­da­de, em locais pró­xi­mos à sua pro­du­ção. É um impor­tan­te nicho para garan­tir a pro­du­ção em peque­na esca­la, garan­tin­do a manu­ten­ção de cul­tu­ras, bens ima­te­ri­ais e tra­di­ções que cons­ti­tu­em nos­sa cul­tu­ra e nos­sa his­tó­ria. Idei­as nobres, sem envol­vi­men­to ide­o­ló­gi­co, apli­ca­das cor­re­ta­men­te pelos gover­nos na for­ma de polí­ti­cas públi­cas nos fazem acre­di­tar que tem­pos melho­res virão.

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