Suplementação mineral: Importância para todas as fases da criação de bovinos - Digital Balde Branco
revista-balde-branco-minerais-01-ed674

Os minerais na quantidade adequada são fundamentais para a saúde das vacas em produção, em várias fases – lactação, período de transição, pós-parto e reprodução

NUTRIÇÃO

Suplementação mineral:

Importância para todas as fases da criação de bovinos de leite

A presença de minerais na dieta dos animais leiteiros é uma necessidade para garantir saúde e produtividade

Gisele Dela Ricci* 

A pro­du­ção lei­tei­ra pos­sui defi­ci­ên­ci­as quan­do fala­mos em suple­men­ta­ção mine­ral e seus refle­xos na qua­li­da­de do lei­te, desem­pe­nho pro­du­ti­vo e repro­du­ção. A inges­tão de mine­rais duran­te a pro­du­ção lei­tei­ra é mui­to variá­vel e pos­si­vel­men­te, em algu­ma cate­go­ria, pode não aten­der às neces­si­da­des nutri­ci­o­nais ade­qua­das, mes­mo com o rece­bi­men­to de suple­men­ta­ções com volu­mo­sos e concentrados.

Os mine­rais são clas­si­fi­ca­dos em macro­mi­ne­rais (entre eles estão cál­cio, fós­fo­ro, sódio, clo­ro, potás­sio, mag­né­sio e enxo­fre), cujo con­su­mo em gra­mas é neces­sá­rio. E, entre os micro­mi­ne­rais, estão cobal­to, cobre, iodo, fer­ro, man­ga­nês, molib­dê­nio, selê­nio e zin­co, que devem ser con­su­mi­dos em mili­gra­mas ou micro­gra­mas na dieta.

Os níveis de exi­gên­cia de macro e micro­e­le­men­tos mine­rais vari­am de acor­do com o tipo, o nível da pro­du­ção lei­tei­ra, a ida­de (bezer­ras, novi­lhas e vacas), a con­di­ção sexu­al, a ração, a adap­ta­ção do ani­mal, o nível e a for­ma quí­mi­ca do mine­ral e suas rela­ções com outros nutri­en­tes inse­ri­dos nas die­tas para esses bovinos. 

As exi­gên­ci­as para pro­ces­sos como cir­cu­la­ção, diges­tão e res­pi­ra­ção (manu­ten­ção), repro­du­ção, pro­du­ção e cres­ci­men­to são dife­ren­tes quan­to ao nível de aces­so aos mine­rais. Na fase do ter­ço final de ges­ta­ção, as neces­si­da­des mine­rais aumen­tam em vir­tu­de do cres­ci­men­to fetal e pro­du­tos da con­cep­ção como pla­cen­ta, úte­ro e flui­do fetal. 

Os sinais clí­ni­cos de defi­ci­ên­cia de cál­cio e fós­fo­ro (macro­nu­tri­en­tes), por exem­plo, são seme­lhan­tes aos de outros mine­rais, o que pre­ju­di­ca o diag­nós­ti­co. A inges­tão ina­de­qua­da de cál­cio pode acar­re­tar fra­gi­li­da­de óssea, cres­ci­men­to len­to, bai­xa pro­du­ção de lei­te e, em casos mais seve­ros, teta­nia e con­vul­sões. A febre do lei­te ocor­re na mai­o­ria das vezes 72 horas depois do par­to, carac­te­ri­za­da por uma dis­fun­ção meta­bó­li­ca cau­sa­da por uma depres­são de cál­cio san­guí­neo, que acon­te­ce quan­do a uti­li­za­ção do cál­cio pelos teci­dos extra­po­la a absor­ção intes­ti­nal e a reab­sor­ção óssea. Aco­me­te prin­ci­pal­men­te vacas de lei­te de alta pro­du­ção, por oca­sião do iní­cio da lactação.

A teta­nia dos pas­tos, como é conhe­ci­da a defi­ci­ên­cia de mag­né­sio, aco­me­te bovi­nos mais velhos em pas­te­jo no iní­cio da pri­ma­ve­ra, em outo­nos úmi­dos ou bezer­ros rece­ben­do lei­te por mui­to tem­po sem outra suple­men­ta­ção ali­men­tar. Os sinais clí­ni­cos da defi­ci­ên­cia em mag­né­sio em rumi­nan­tes são carac­te­ri­za­dos por redu­ção do ape­ti­te, aumen­to da exci­ta­bi­li­da­de, sali­va­ção cons­tan­te e convulsões.

Exem­pli­fi­can­do os micro­nu­tri­en­tes, indi­cam-se os sinais clí­ni­cos de bovi­nos com defi­ci­ên­cia em cobal­to, que não são par­ti­cu­la­res, com per­da de ape­ti­te gra­du­al e, à medi­da que o qua­dro se agra­va, ocor­re para­da do cres­ci­men­to ou per­da de peso, per­da de mas­sa mus­cu­lar, ane­mia seve­ra e mor­te consecutiva.

As vitaminas também possuem um papel importante no funcionamento da célula do animal, com necessidade parecida com a dos minerais. O produtor deve estar sempre atento e seguir as orientações do técnico nutricionista para garantir o adequado teor de minerais na dieta

Outro micro­nu­tri­en­te impor­tan­te de ser cita­do é o fer­ro. Rumi­nan­tes jovens estão mais sujei­tos à defi­ci­ên­cia de fer­ro por­que o lei­te é pobre no ele­men­to, exi­bin­do sinais de ane­mia, bai­xo ganho de peso, inca­pa­ci­da­de de supor­tar o esfor­ço cir­cu­la­tó­rio, res­pi­ra­ção difi­cul­ta­da, dimi­nui­ção de ape­ti­te e pali­dez das muco­sas visí­veis. Nor­mal­men­te, bovi­nos adul­tos não são aco­me­ti­dos por fal­ta de fer­ro, a não ser que acon­te­ça con­si­de­rá­vel per­da de san­gue por para­si­to­ses ou doenças.

Em rela­ção ao iodo, sua defi­ci­ên­cia cau­sa o bócio. Em bovi­nos jovens se carac­te­ri­za por fra­que­za, atra­so no desen­vol­vi­men­to cere­bral, nas­ci­men­to de ani­mais fra­cos, cegos e sem pelos. Em fême­as ges­tan­tes, o desen­vol­vi­men­to fetal pode ser para­li­sa­do, resul­tan­do em mor­te, reab­sor­ção embri­o­ná­ria, abor­to ou nati­mor­to, asso­ci­a­dos à ges­ta­ção pro­lon­ga­da, par­tos tra­ba­lho­sos e reten­ção de membranas. 

As vita­mi­nas tam­bém pos­su­em um papel impor­tan­te no fun­ci­o­na­men­to da célu­la no ani­mal, com quan­ti­da­des de neces­si­da­des pare­ci­das com a dos mine­rais. As vita­mi­nas são clas­si­fi­ca­das em solú­veis em óleo (A, D, E e K) e solú­veis em água (vita­mi­nas B e C). Gra­mí­ne­as na mai­o­ria das vezes são pobres em fós­fo­ro ℗, cobre (Cu), zin­co (Zn) e cobal­to (Co) e ricas em fer­ro (Fe). Já os grãos e fare­los pos­su­em níveis mais altos de fós­fo­ro quan­do com­pa­ra­dos ao cál­cio (Ca). As vita­mi­nas tam­bém neces­si­tam de suple­men­ta­ção efe­ti­va e alguns micro­e­le­men­tos mine­rais (zin­co) têm efei­to posi­ti­vo na redu­ção da con­ta­gem de célu­las somá­ti­cas (CCS).

Ape­sar de a água não ser uma impor­tan­te fon­te de mine­rais, todos os ele­men­tos essen­ci­ais podem ser detec­ta­dos nela. Alguns mine­rais ocor­rem em mai­or quan­ti­da­de na água, depen­den­do da região. Por exem­plo, águas cal­cá­ri­as que pos­su­em altos níveis de cál­cio que influ­en­ci­am na absor­ção de fós­fo­ro e zin­co. Águas salo­bras, com altos teo­res de sódio, que redu­zem o con­su­mo das mis­tu­ras mine­rais e, por­tan­to, podem acar­re­tar defi­ci­ên­ci­as minerais.

Entre os sinais clí­ni­cos fre­quen­tes rela­ci­o­na­dos à ine­fi­ci­ên­cia da suple­men­ta­ção mine­ral, pode­mos citar a per­da e a des­pig­men­ta­ção de pelos, alte­ra­ções epi­dér­mi­cas, abor­tos não-infec­ci­o­sos, diar­reia, ane­mia, per­da de ape­ti­te, anor­ma­li­da­des ósse­as, teta­nia, bai­xa fer­ti­li­da­de e ape­ti­te depra­va­do (alo­tro­fa­gia). Ain­da o des­ba­lan­ce­a­men­to de mine­rais na die­ta pode ser con­si­de­ra­do seve­ro ou leve, com sin­to­mas não espe­cí­fi­cos, com efei­tos dire­tos na repro­du­ção e no desem­pe­nho pro­du­ti­vo dos bovi­nos lei­tei­ros. Ani­mais com suple­men­ta­ções mine­rais pou­co satis­fa­tó­ri­as apre­sen­tam lon­gos inter­va­los entre par­tos, bai­xos índi­ces de ser­vi­ço por con­cep­ção, alta con­ta­gem de célu­las somá­ti­cas, com per­das na saú­de da glân­du­la mamá­ria, por exemplo. 

Para garantir o desenvolvimento saudável, os minerais são indispensáveis para as bezerras e novilhas

Fazer a suple­men­ta­ção – Duran­te a épo­ca seca do ano, o pro­du­tor faz o uso de suple­men­tos volu­mo­sos, como sila­gens e fenos, para impe­dir per­das acen­tu­a­das de peso dos ani­mais. A cana-de-açú­car tem sido indi­ca­da para a uti­li­za­ção, uma vez que apre­sen­ta diver­sas van­ta­gens prá­ti­cas e por ser ali­men­to de alta pala­ta­bi­li­da­de, rica em car­boi­dra­tos e que pro­mo­ve a inges­tão de ureia. No entan­to, esse ali­men­to apre­sen­ta carên­ci­as em pro­teí­na e alguns mine­rais, espe­ci­al­men­te fós­fo­ro, mag­né­sio, enxo­fre, zin­co e man­ga­nês. É impor­tan­te des­ta­car a neces­si­da­de do perío­do de adap­ta­ção de três a qua­tro sema­nas, duran­te o qual a quan­ti­da­de de ureia vai sen­do aumen­ta­da gra­da­ti­va­men­te no for­ne­ci­men­to aos animais.

Atu­al­men­te há dife­ren­tes pro­du­tos comer­ci­ais para aten­der às exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais de bovi­nos lei­tei­ros, inde­pen­den­te da fase pro­du­ti­va em que o ani­mal se encon­tra, tan­to na for­ma de núcle­os, que são inse­ri­dos na for­mu­la­ção do con­cen­tra­do, quan­to na for­ma de sal mine­ral, que será for­ne­ci­do de for­ma sepa­ra­da no cocho.

Para bovi­nos cri­a­dos a pas­to, o con­su­mo à von­ta­de é comum. O sal comum é o veí­cu­lo usa­do para dar pala­ta­bi­li­da­de à mis­tu­ra mine­ral, ao mes­mo tem­po em que tam­bém fun­ci­o­na como regu­la­dor de con­su­mo. Quan­do for­ne­ci­do sepa­ra­da­men­te, é essen­ci­al que o mine­ral este­ja dis­po­ní­vel no cocho, evi­tan­do que os ani­mais o encon­trem vazio ao bus­car a suple­men­ta­ção. O cocho pre­ci­sa ser cober­to, com loca­li­za­ção estra­té­gi­ca, uma vez que alguns com­po­nen­tes são solú­veis em água.

Tem-se obser­va­do, nos dias de hoje, que os pro­du­to­res pos­su­em, em sua mai­o­ria, conhe­ci­men­to sobre a impor­tân­cia da suple­men­ta­ção, espe­ci­al­men­te sal e com­pos­tos mine­rais, com a obser­va­ção cons­tan­te da ofer­ta de sal aos bovi­nos nas pro­pri­e­da­des. No entan­to, ain­da se obser­va fal­ta de ori­en­ta­ção téc­ni­ca ade­qua­da em rela­ção ao for­ne­ci­men­to ide­al, que garan­te ade­qua­da mine­ra­li­za­ção dos ani­mais. Para melhor ori­en­ta­ção, o pro­du­tor pode aces­sar o site da Embra­pa Gado de lei­te. Suple­men­ta­ção Mine­ral. Dis­po­ní­vel em https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/582576/suplementacao-mineral-para-gado-de-leite.

Dian­te da impor­tân­cia da mine­ra­li­za­ção na die­ta do gado lei­tei­ro e seu efei­to posi­ti­vo na pro­du­ção de lei­te e desem­pe­nho zoo­téc­ni­co, obser­va-se que essa prá­ti­ca tec­no­ló­gi­ca sim­ples se tor­nou essen­ci­al para a pecuá­ria lei­tei­ra. Esse mane­jo pos­sui bom cus­to-bene­fí­cio, pois melho­ra a pro­du­ção e a sani­da­de dos ani­mais, aumen­tan­do a qua­li­da­de do sis­te­ma de cri­a­ção. O conhe­ci­men­to sobre a impor­tân­cia da suple­men­ta­ção, como rea­li­zar de for­ma ade­qua­da e suas van­ta­gens, per­mi­te o suces­so de bovi­nos de lei­te cri­a­dos a pas­to e con­fi­na­dos, em suas dife­ren­tes cate­go­ri­as de pro­du­ção. (No ori­gi­nal da auto­ra, há refe­rên­ci­as bibli­o­grá­fi­cas, que podem ser soli­ci­ta­das à redação).

*Zoo­tec­nis­ta, mes­tra, dou­to­ra e pós-dou­to­ran­da pela USP. Atua no labo­ra­tó­rio de Eto­lo­gia, bio­cli­ma­to­lo­gia e nutri­ção de ani­mais de pro­du­ção (bovi­nos, suí­nos e ovinos).

Rolar para cima