Trilogia do leite brasileiro: O começo de tudo - Digital Balde Branco

CRÔNICA

Paulo do Carmo Martins 

Economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite

 A pro­fa. Môni­ca Cer­quei­ra lide­rou vári­os estu­dos fei­tos em con­so­nân­cia com
as neces­si­da­des dos pro­du­to­res e da indús­tria, sem­pre rela­ci­o­na­dos à qua­li­da­de do leite”

Trilogia do leite brasileiro: O começo de tudo 

Nas últi­mas cin­co déca­das o setor de lei­te e deri­va­dos bra­si­lei­ro se trans­for­mou. Em 1972, saí­mos de uma pro­du­ção de cer­ca de 7 bilhões de litros de leite/ano, para cer­ca de 36 bilhões/ano atu­al­men­te. São cin­co vezes mais, enquan­to a popu­la­ção dobrou, sain­do de 100 milhões para 211 milhões, aumen­tan­do sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te a dis­po­ni­bi­li­da­de de lei­te para cada brasileiro.

Mas o cres­ci­men­to da pro­du­ção não retra­ta toda a mudan­ça estru­tu­ral vivi­da. Para evi­den­ciá-la, vamos cons­truir a linha do tem­po do setor e apre­sen­tá-la em três arti­gos, a par­tir des­te. Sim, será a Tri­lo­gia do Lei­te Brasileiro. 

Em 1972, os melho­res reba­nhos apre­sen­ta­vam pro­du­ti­vi­da­de média de cin­co litros por vaca/dia. Eram ani­mais sem raça defi­ni­da, cri­a­dos exten­si­va­men­te em pas­tos não cul­ti­va­dos. O úni­co cui­da­do com a ali­men­ta­ção ver­de era roçar o pas­to uma vez por ano. E a ração era o fare­lo de tri­go impor­ta­do, com­pra­do a pre­ços sub­si­di­a­dos. Era um Bra­sil que não conhe­cia a soja e pro­du­zia pou­co milho. As pro­pri­e­da­des eram mul­ti­fun­ci­o­nais, pro­du­zi­am para subsistência.

A orde­nha era manu­al e a pro­du­ção não enchia um latão de 30 litros. Leva­do para a bei­ra da estra­da, esse latão ali per­ma­ne­cia ao sol ou chu­va, até ser reco­lhi­do pelo cami­nhão não refri­ge­ra­do. Nes­sa épo­ca, o poder de bar­ga­nha do cami­nho­nei­ro com pro­du­tor e com indús­tria era mui­to gran­de, pois ele defi­nia as rotas de captação. 

Nos anos 1970, gran­de pro­du­tor era aque­le que tinha mui­ta ter­ra e mui­tas cabe­ças de gado. Por­tan­to, a visão patri­mo­ni­a­lis­ta era a mar­ca da ati­vi­da­de. A ren­da com a ven­da de ani­mais tinha mui­ta rele­vân­cia para o pro­du­tor. Minas Gerais e São Pau­lo eram os prin­ci­pais Esta­dos pro­du­to­res. O Sul man­ti­nha autos­su­fi­ci­ên­cia e o Cen­tro-Oes­te, com pou­ca popu­la­ção, pro­du­zia mais que con­su­mia e o exce­den­te era des­ti­na­do ao Nor­des­te e Nor­te. Com pou­ca pro­du­ção por pro­pri­e­da­de, o lei­te era escas­so e caro.

Os lati­cí­ni­os eram peque­nos, explo­ra­vam mer­ca­dos res­tri­tos, com mar­cas regi­o­nais. Havia for­te pre­sen­ça de coo­pe­ra­ti­vas cen­trais, con­gre­gan­do deze­nas de sin­gu­la­res, prin­ci­pal­men­te nas Regiões Sudes­te e Sul. Itam­bé, Pau­lis­ta, CCGL e CCPL eram suas mar­cas for­tes. A vari­e­da­de de deri­va­dos dis­po­ní­veis para o con­su­mi­dor era res­tri­ta: lei­te em pó, lei­te pas­teu­ri­za­do em sacos de um litro, lei­te con­den­sa­do, cre­me de lei­te e quei­jos, como muça­re­la, pra­to e minas. O canal de comer­ci­a­li­za­ção úni­co eram as pada­ri­as. Mas o for­te da comer­ci­a­li­za­ção era o mer­ca­do infor­mal. O lei­tei­ro, em sua car­ro­ça de bur­ro, fazia deli­very por­ta a porta. 

O cres­ci­men­to econô­mi­co expo­nen­ci­al daque­la déca­da, em que o PIB che­gou a cres­cer 14% num úni­co ano, dei­xou um lega­do: o cres­ci­men­to subs­tan­ci­al do con­su­mo. A res­pos­ta ime­di­a­ta foram as impor­ta­ções e o Bra­sil se tor­nou o ter­cei­ro mai­or impor­ta­dor de lei­te do mundo.

Mas o qua­dro de bonan­ça da eco­no­mia ter­mi­nou na déca­da seguin­te. Os anos 1980 trou­xe­ram dois gran­des desa­fi­os para o setor: estag­fla­ção e urba­ni­za­ção rápi­da. A infla­ção galo­pan­te, expres­são da épo­ca, se ins­ta­lou num ambi­en­te de reces­são. Por­tan­to, estag­fla­ção – o pior dos mun­dos. Foi a pri­mei­ra gran­de cri­se econô­mi­ca des­de o iní­cio da indus­tri­a­li­za­ção bra­si­lei­ra, que fez aque­le perío­do ser conhe­ci­do como “a déca­da perdida”. 

Lei­te e deri­va­dos são mui­to afe­ta­dos por desem­pre­go e infla­ção ele­va­dos, que depri­mem o poder de com­pra dos assa­la­ri­a­dos. Para com­pli­car ain­da mais o setor, nes­sa épo­ca o pre­ço do lei­te era tabe­la­do sem cri­té­ri­os pelo gover­no, que usou des­se ins­tru­men­to para com­ba­ter a infla­ção, ao segu­rar os rea­jus­tes ao pro­du­tor. Vale res­sal­tar que o lei­te tinha um con­si­de­rá­vel peso no cál­cu­lo do índi­ce do cus­to de vida. 

O segun­do desa­fio foi a urba­ni­za­ção rápi­da, com o cres­ci­men­to das capi­tais dos Esta­dos. Isso resul­tou num mai­or cus­to de lei­te e deri­va­dos na mesa do con­su­mi­dor e em mai­o­res per­das na comer­ci­a­li­za­ção. O Bra­sil não tinha uma logís­ti­ca de fri­os. Com dis­tân­ci­as cres­cen­tes do local de pro­du­ção para o con­su­mo, o qua­dro se agra­vou, numa épo­ca em que o Bra­sil era impor­ta­dor de petró­leo caro e com escas­sez de dóla­res no Ban­co Central. 

Nes­se ambi­en­te de pre­ços con­tro­la­dos e cus­tos ele­va­dos, os pro­du­to­res redu­zi­ram a ofer­ta e ficou evi­den­ci­a­do que era pre­ci­so cri­ar um cri­té­rio trans­pa­ren­te para rea­jus­te de pre­ços do lei­te ao pro­du­tor. Cou­be ao pro­fes­sor Sebas­tião Tei­xei­ra Gomes e a mim pro­por­mos uma pla­ni­lha de cus­tos, que se tor­nou ofi­ci­al pelo gover­no, em 1987. Com 25 anos, era minha a res­pon­sa­bi­li­da­de de dizer quan­to deve­ria ser o rea­jus­te de preços.

O lega­do des­se perío­do? A Pla­ni­lha de Cus­tos de Pro­du­ção de Lei­te da Embra­pa foi uma dis­rup­tu­ra ins­ti­tu­ci­o­nal. A par­tir dela, os pro­du­to­res pas­sa­ram a rei­vin­di­car polí­ti­cas públi­cas. Já a urba­ni­za­ção evi­den­ci­ou a neces­si­da­de do aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de em toda a cadeia, visan­do à efi­ci­ên­cia e competitividade. 

Nes­te arti­go abor­da­mos as déca­das 1970 e 80. O come­ço das trans­for­ma­ções estru­tu­rais. No mês que vem avan­ça­re­mos no tem­po. Aguar­do você aqui.