Tristeza parasitária: um perigo à saúde do rebanho e que traz altos prejuizos - Digital Balde Branco
revista-balde-branco-tristeza-01-ed678

O produtor deve estar atento ao fato de que, para manter a sanidade do rebanho, é importante o controle do carrapato

SANIDADE

Tristeza parasitária

Um perigo à saúde do rebanho e que traz altos prejuizos

A tristeza parasitária bovina é uma séria doença, que provoca grande impacto econômico na bovinocultura, em razão dos altos índices de mortalidade e morbidade, elevando os custos com tratamentos e manejos especiais 

Gisele Dela Ricci*

A tris­te­za para­si­tá­ria bovi­na (TPB), popu­lar­men­te conhe­ci­da como ama­re­lão, mal da boca bran­ca, tris­te­zi­nha ou piro­plas­mo­se, é com­pos­ta por um con­jun­to de doen­ças nas quais se inse­rem a babe­si­o­se e a ana­plas­mo­se. Ambas podem apre­sen­tar infec­ções simul­tâ­ne­as e seme­lhan­tes, uma vez que para­si­tam a mes­ma célu­la san­guí­nea e apre­sen­tam sin­to­mas pare­ci­dos. No entan­to, são doen­ças dis­tin­tas, que não depen­dem uma da outra e neces­si­tam de mane­jos e tra­ta­men­tos característicos.

A trans­mis­são das babe­si­as aos bovi­nos ocor­re por meio do car­ra­pa­to Boophi­lus micro­plus, conhe­ci­do como car­ra­pa­to-do-boi, exclu­si­va­men­te. Para o ana­plas­ma, a trans­mis­são ocor­re pelo mes­mo car­ra­pa­to, poden­do ocor­rer por via mecâ­ni­ca atra­vés da pica­da de inse­tos como mos­cas, mos­qui­tos e mutu­cas. A pre­sen­ça e a inten­si­da­de do ata­que do car­ra­pa­to con­si­de­ra­do o prin­ci­pal trans­mis­sor deter­mi­na o apa­re­ci­men­to, a manu­ten­ção ou a ausên­cia da doen­ça no rebanho.

No controle com carrapaticida, é indispensável tomarem-se todos os cuidados para a proteção da pessoa que estiver aplicando o produto

Ani­mais de 7 a 10 meses de ida­de não apre­sen­tam imu­ni­da­de espe­cí­fi­ca aos agen­tes da tris­te­za para­si­tá­ria bovi­na. Mas, quan­do vivem em regiões que pos­su­em con­ta­to com o car­ra­pa­to duran­te todo o ano, os agen­tes são ino­cu­la­dos nos ani­mais des­de pra­ti­ca­men­te o nas­ci­men­to, per­mi­tin­do que esses bezer­ros adqui­ram mais resis­tên­cia e fiquem menos doen­tes, tor­nan­do-se adul­tos mais resis­ten­tes. Dife­ren­te­men­te dos ani­mais que vivem em regiões sem esse con­ta­to ini­ci­al, situ­a­ção que os tor­na mais sus­ce­tí­veis à doença.

A incu­ba­ção do ana­plas­ma varia de duas a qua­tro sema­nas, a depen­der da sen­si­bi­li­da­de do hos­pe­dei­ro e da quan­ti­da­de de para­si­tas no san­gue dos ani­mais. Se hou­ver ino­cu­la­ção com san­gue con­ta­mi­na­do, o perío­do pode ser de uma ou duas sema­nas. Para a babe­si­o­se, são encon­tra­dos perío­dos de incu­ba­ção de uma a três sema­nas nas infec­ções naturais.

Entre os sin­to­mas do ana­plas­ma, no iní­cio, são obser­va­dos aumen­to da tem­pe­ra­tu­ra cor­po­ral, poden­do alcan­çar 40 a 41 graus Cel­sius, que se man­tém alta por deter­mi­na­do tem­po até abai­xar e alcan­çar a tem­pe­ra­tu­ra nor­mal. O bovi­no apre­sen­ta­rá fra­que­za, depres­são, mic­ção fre­quen­te, uri­na ama­re­lo-escu­ra, fal­ta de ape­ti­te e desi­dra­ta­ção. Os ani­mais podem se tor­nar anê­mi­cos, com fal­ta de oxi­gê­nio nos órgãos ou teci­dos, apre­sen­tar fal­ta de ar ou gra­ve difi­cul­da­de de res­pi­rar, poden­do cam­ba­le­ar e ou se tor­na­rem lentos.

Para a babe­si­o­se, os sinais clí­ni­cos mais obser­va­dos são o aumen­to da tem­pe­ra­tu­ra, que pode che­gar a até 41 graus Cel­sius, ane­mia, colo­ra­ção ama­re­la da pele e/ou dos olhos, ano­re­xia, depres­são e fra­que­za. As muco­sas e con­jun­ti­vas e a área dos olhos tor­nam-se mui­to páli­das, com aumen­to da frequên­cia res­pi­ra­tó­ria e car­día­ca. Bovi­nos, depen­den­do da para­si­to­se, podem apre­sen­tar babe­si­o­se cere­bral, que pode ser carac­te­ri­za­da pela fal­ta de coor­de­na­ção moto­ra acom­pa­nha­da de para­li­sia dos mem­bros, con­vul­sões, coma e morte.

 

O diag­nós­ti­co da ana­plas­mo­se é base­a­do nos sinais clí­ni­cos, em exa­mes labo­ra­to­ri­ais e his­tó­ri­co do local. Com rela­ção aos sinais clí­ni­cos impor­tan­tes, podem ser obser­va­das febre, depres­são, muco­sas páli­das e ano­re­xia, que são sem­pre fre­quen­tes. Nos exa­mes labo­ra­to­ri­ais, podem ser obser­va­dos ana­plas­mas na mar­gem das célu­las san­guí­ne­as. Para o his­tó­ri­co, a ida­de e a ori­gem dos ani­mais, impor­ta­dos ou de áre­as de bai­xa inci­dên­cia devem ser avaliados.

É preciso adotar estratégias de controle do carrapato, seguindo orientação técnica

O diag­nós­ti­co clí­ni­co da babe­si­o­se nor­mal­men­te é con­fun­di­do com sinais de outras enfer­mi­da­des. No entan­to, podem ser obser­va­das muco­sas páli­das, hemo­glo­bi­nú­ria e febre. As ava­li­a­ções labo­ra­to­ri­ais per­mi­tem obser­var hemá­ci­as do san­gue infec­ta­das por babesias.

 

Estra­té­gi­as de con­tro­le das doen­ças – Para o con­tro­le da tris­te­za para­si­tá­ria bovi­na, o mais indi­ca­do é a pro­fi­la­xia, evi­tan­do o apa­re­ci­men­to da doen­ça, pois o tra­ta­men­to medi­ca­men­to­so, con­si­de­ran­do um núme­ro mai­or de ani­mais, é caro e em alguns casos não apre­sen­ta a efi­ci­ên­cia esperada.


As for­mas de con­tro­le pro­fi­lá­ti­co uti­li­za­das para as para­si­to­ses são o con­tro­le dos veto­res, a medi­ca­men­to­sa, a pre­mu­ni­ção e a uti­li­za­ção de vaci­nas. O con­tro­le de car­ra­pa­to se cons­ti­tui em uma medi­da de con­tro­le da tris­te­za para­si­tá­ria bovi­na e é imple­men­ta­do em níveis de erra­di­ca­ção e con­tro­le estratégico.


A pro­fi­la­xia deve ocor­rer por meio da imu­ni­za­ção de bovi­nos sen­sí­veis, com pos­si­bi­li­da­de de adqui­ri­rem a doen­ça, levan­do ani­mais de áre­as livres de car­ra­pa­tos para áre­as com a pre­sen­ça dos para­si­tas, locais onde há situ­a­ção de dimi­nui­ção tem­po­rá­ria da infes­ta­ção por car­ra­pa­tos e a loca­li­da­des onde há ani­mais expos­tos à supe­rin­fes­ta­ção por carrapatos.

 

Em piquetes, onde entram em contato com o carrapato, as bezerras têm mais resistência à TPB

A cam­pa­nha de erra­di­ca­ção do car­ra­pa­to do boi (Boophi­lus micro­plus) teve iní­cio em 1906, nos Esta­dos Uni­dos, e é atu­al­men­te man­ti­da pela vigi­lân­cia sani­tá­ria. No Bra­sil, é usa­do o con­tro­le em algu­mas áre­as, mas, repe­ti­da­men­te, é obser­va­da a uti­li­za­ção de pro­du­tos car­ra­pa­ti­ci­das sem nenhu­ma for­ma de moni­to­ra­men­to.
Pecu­a­ris­tas têm uti­li­za­do prá­ti­cas como es­ta­bulação e aqui­si­ção de ani­mais com poten­ci­al gené­ti­co apri­mo­ra­do para alcan­çar melho­res índi­ces de pro­du­ti­vi­da­de. Tais prá­ti­cas cola­bo­ram com a pro­li­fe­ra­ção de car­ra­pa­tos. O car­ra­pa­to não deve ser eli­mi­na­do e sim con­tro­la­do pelas pro­pri­e­da­des, de manei­ra que os bovi­nos sejam para­si­ta­dos duran­te todas as esta­ções do ano com infes­ta­ções bai­xas e controladas.


O con­tro­le de car­ra­pa­to, asso­ci­a­do à imu­ni­za­ção de ani­mais sus­ce­tí­veis, é uma for­ma efi­ci­en­te de pro­fi­la­xia des­sa para­si­to­se em algu­mas áre­as de ins­ta­bi­li­da­de. Para a ana­plas­mo­se, é neces­sá­rio que haja con­tro­le ade­qua­do de mos­cas na pro­pri­e­da­de, sobre­tu­do em esta­ções chu­vo­sas do ano, quan­do a popu­la­ção delas é maior.

Dife­ren­tes méto­dos de vaci­na­ção têm sido ava­li­a­dos em con­di­ções de labo­ra­tó­rio e cam­po, e, na mai­o­ria delas, se uti­li­za a vaci­na com san­gue de bovi­nos infec­ta­dos, con­ten­do for­mas vivas ate­nu­a­das, prá­ti­ca que traz resul­ta­dos satisfatórios.


Três tipos de vaci­nas foram desen­vol­vi­dos para a ana­plas­mo­se e, após sua apli­ca­ção, os bovi­nos desen­vol­vem res­pos­ta imu­no­ló­gi­ca. A imu­ni­da­de atri­buí­da por essa vaci­na pos­sui a capa­ci­da­de de redu­zir per­das econô­mi­cas oca­si­o­na­das pela mor­bi­da­de e/ou mor­ta­li­da­de depois de um desa­fio expe­ri­men­tal ou natu­ral. A vaci­na ina­ti­va­da é um outro tipo de imu­ni­zan­te desen­vol­vi­do a par­tir de san­gue de bovi­nos ino­cu­la­dos no pique da doen­ça. (Do ori­gi­nal, cons­tam diver­sas refe­rên­ci­as bibli­o­grá­fi­cas, à dis­po­si­ção dos interessados.)

 

*Zoo­tec­nis­ta, mes­tra, dou­to­ra e pós-dou­to­ran­da pela USP. Atua no labo­ra­tó­rio de Eto­lo­gia, bio­cli­ma­to­lo­gia e nutri­ção de ani­mais de pro­du­ção (bovi­nos, suí­nos e ovinos)

Rolar para cima