Trump e o leite: o que esperar - Digital Balde Branco

Qual será o impac­to que a elei­ção do novo pre­si­den­te nor­te-ame­ri­ca­no terá no mer­ca­do lác­teo glo­bal? Con­fi­ra as pro­je­ções a par­tir de uma aná­li­se do Rabobank


O que vai acon­te­cer com o setor lác­teo glo­bal a par­tir da pos­se do recém-elei­to pre­si­den­te dos Esta­dos Uni­dos, Donald Trump? Esta é ape­nas uma das mui­tas inter­ro­ga­ções que se mul­ti­pli­ca­ram logo após o anún­cio da vitó­ria do empre­sá­rio nor­te-ame­ri­ca­no, que duran­te a cam­pa­nha elei­to­ral se reve­lou con­tra os acor­dos comer­ci­ais vigen­tes e a favor de mai­or pro­te­ci­o­nis­mo comer­ci­al para o seu país. Aos ana­lis­tas, sobram pro­je­ções. No caso do lei­te, qua­se adivinhações.

Nes­te cená­rio de incer­te­zas, o pró­prio Rabo­bank, com sua com­pe­ten­te equi­pe de ana­lis­tas de mer­ca­do, admi­te ser difí­cil ex¬trair obje­ti­vos polí­ti­cos ou econô­mi­cos da retó­ri­ca empre­ga­da por Trump nos dis­cur­sos de cam­pa­nha. No estu­do divul­ga­do no mês pas­sa­do, o ban­co holan­dês cita que a incer­te­za de cur­to pra­zo pode redu­zir a con­fi­an­ça do com­pra­dor, dimi­nuin­do a já fra­ca deman­da glo­bal por lác­te­os. “A incer­te­za tam­bém pode levar à vola­ti­li­da­de nos mer­ca­dos mone­tá­ri­os”, cita o docu­men­to, obser­van­do que qual­quer des­vio no valor das moe­das for­tes afe­ta­rá a com­pe­ti­ti­vi­da­de dos expor­ta­do­res de lácteos.

Como exem­plo, men­ci­o­na o recen­te enfra­que­ci­men­to do peso mexi­ca­no, em tor­no de 10%, dei­xan­do as 3,7 milhões de t (em ter­mos equi­va­len­tes a lei­te líqui­do) das expor­ta­ções de lác­te­os nor­te-ame­ri­ca­nas para o Méxi­co mais caras, pro­va­vel­men­te redu­zin­do a deman­da. Outra ques­tão: qual­quer rene­go­ci­a­ção do Acor­do de Livre Comér­cio da Amé­ri­ca do Nor­te (Naf­ta) pode­rá inter­rom­per as expor­ta­ções de pro­du­tos lác­te­os dos EUA para o Méxi­co, com um efei­to nega­ti­vo para os pro­ces­sa­do­res de lác­te­os ame­ri­ca­nos, mas, ao mes­mo tem­po, pode pro­por­ci­o­nar opor­tu­ni­da­des para outras regiões de exportação.

A se con­fir­mar o com­pro­mis­so da não rati­fi­ca­ção do Tra­ta­do Trans­pa­cí­fi­co (TTP), pro­me­ti­do para o pri­mei­ro dia do man­da­to, os ana­lis­tas con­si­de­ram que os impac­tos para os pro­du­to­res de lei­te nos Estados¬-membro do acor­do serão rela­ti­va­men­te peque­nos e de lon­go pra­zo. Já no extre­mo opos­to do con­ti­nen­te, a pro­te­ção tari­fá­ria da indús­tria de lati­cí­ni­os cana­den­se pode ser refor­ça­da nova­men­te pela pou­ca opor­tu­ni­da­de de se conec­tar aos impor­ta­do­res nos EUA. “Qual­quer redu­ção na imi­gra­ção, devi­do a uma rene­go­ci­a­ção do Naf­ta tam­bém pode ter um impac­to sobre o aumen­to dos cus­tos de tra­ba­lho para ambos, pro­du­to­res e pro­ces­sa­do­res ame­ri­ca­nos”, des­ta­ca o documento.

Mui­to tem se fala­do a res­pei­to do futu­ro rela­ci­o­na­men­to entre Trump e o pre­si­den­te rus­so, Vla­di­mir Putin. O estrei­ta­men­to das rela­ções com a Rús­sia pode sig­ni­fi­car o fim do embar­go comer­ci­al. Antes do embar­go, a Rús­sia era o segun­do mai­or impor­ta­dor de pro­du­tos lác­te­os, impor­tan­do 440.000 tone­la­das de quei­jo em 2013. Gran­de par­te das impor­ta­ções da Rús­sia se ori­gi­nou da Euro­pa no pas­sa­do, mas há uma chan­ce de que a Euro­pa não se bene­fi­cie com a melho­ra das rela­ções Rússia/EUA. A Rús­sia, pre­fe­re man­ter as san­ções, devi­do à situ­a­ção na Ucrâ­nia. Nes­se caso, o setor lác­teo nos EUA pode se bene­fi­ci­ar mais do que as con­tra­par­tes europeias.

Com­ple­tan­do, a aná­li­se do Rabo­bank con­si­de­ra que a mai­or pre­o­cu­pa­ção é a dete­ri­o­ra­ção poten­ci­al do comér­cio entre os Esta­dos Uni­dos e a Chi­na. Com base em dados de 2015, o exce­den­te comer­ci­al da Chi­na com os EUA repre­sen­tou cer­ca de 2,4% do PIB e o inves­ti­men­to dos EUA na Chi­na repre­sen­tou 0,7% do PIB. Poten­ci­al­men­te, vê-se os 3,1% do PIB da Chi­na em jogo se os EUA fica­rem extre­ma­men­te pro­te­ci­o­nis­tas. Isso seria sig­ni­fi­ca­ti­vo do pon­to de vis­ta chi­nês, e a guer­ra comer­ci­al resul­tan­te cer­ta­men­te cri­a­ria um efei­to de pro­pa­ga­ção para dis­tin­tas eco­no­mi­as. “Uma situ­a­ção nega­ti­va para os pre­ços do mer­ca­do de com­mo­di­ti­es lác­te­as”, citam.

Trump pre­o­cu­pa o Brasil
Para Alys­son Pao­li­nel­li, ex-minis­tro da Agri­cul­tu­ra e pre­si­den­te-exe­cu­ti­vo da Abra­mi­lho-Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Pro­du­to­res de Milho, a elei­ção de Donald Trump para a pre­si­dên­cia dos Esta­dos Uni­dos sig­ni­fi­ca um sinal de aler­ta para os agri­cul­to­res bra­si­lei­ros. Ações pro­te­ci­o­nis­tas, ele­va­ção de sub­sí­di­os e inves­ti­men­tos em empre­sas ame­ri­ca­nas de tec­no­lo­gia agrí­co­la defen­di­das por Trump podem ter impac­to sobre a ren­da dos pro­du­to­res no Bra­sil. “É pre­ci­so se pre­o­cu­par e se pre­ca­ver”, dis­se ele, ao ser entre­vis­ta­do no pro­gra­ma Dire­to Ao Pon­to, no Canal Rural.

O ex-minis­tro admi­tiu, no entan­to, ter difi­cul­da­de para pen­sar em uma estra­té­gia que con­si­ga pro­te­ger os pro­du­to­res bra­si­lei­ros no atu­al momen­to. Ele afir­mou que o País pre­ci­sa se reor­ga­ni­zar polí­ti­ca e eco­no­mi­ca­men­te. “Um dos pon­tos de mudan­ça neces­sá­ri­os seria o segu­ro rural. “Há um des­ca­la­bro nes­sa polí­ti­ca. Toda a cadeia está des­con­ten­te. Nos­sa pro­pos­ta é uma par­ce­ria”, afir­mou. O novo segu­ro deve con­tar com recur­sos do gover­no fede­ral, empre­sas de insu­mos e pro­du­to­res, segun­do ele.

Duran­te o pro­gra­ma, Pao­li­nel­li ava­li­ou que o Bra­sil já teve uma das melho­res polí­ti­cas públi­cas para o cam­po, mas que isso aca­bou ao lon­go dos tem­pos acom­pa­nhan­do o defi­nha­men­to da eco­no­mia naci­o­nal. “Come­çou a desan­dar com o iní­cio dos pla­nos econô­mi­cos. Estra­ga­ram todos os pro­gra­mas. Cré­di­to, pre­ços míni­mos, segu­ro”, dis­se, men­ci­o­nan­do que tem cer­te­za de que o agro­ne­gó­cio bra­si­lei­ro sofre­rá impac­to dire­to com as pro­me­ti­das ações pro­te­ci­o­nis­tas e ele­va­ção de sub­sí­di­os nos Esta­dos Unidos.

Opi­nião opos­ta foi mani­fes­ta­da pelo dire­tor de rela­ções com inves­ti­do­res da JBS, Jere­mi­ah O’Callaghan. “A indús­tria de ali­men­tos ten­de a ser a últi­ma a sofrer com even­tu­ais res­tri­ções de comér­cio”, ava­li­ou ao abor­dar as pro­pos­tas de pro­te­ci­o­nis­mo do pre­si­den­te elei­to dos EUA. Segun­do ele, o cená­rio é sus­ten­ta­do pelo efei­to sobre a infla­ção e pela “inqui­e­ta­ção soci­al” pro­vo­ca­da pela escas­sez de ali­men­tos, con­for­me cita­do no jor­nal O Esta­do de São Paulo.

Duran­te semi­ná­rio sobre o tema pro­mo­vi­do pela Câma­ra Ame­ri­ca­na de Comér­cio, O’Callaghan con­si­de­rou ain­da que o futu­ro gover­no ame­ri­ca­no deve­rá se pre­o­cu­par em pre­ser­var uma indús­tria que gera tan­to em¬prego, lem­bran­do que o gru­po bra­si­lei­ro em¬prega cer­ca de 70 mil pes­so­as nos Esta­dos Uni­dos, onde entrou há mais de uma déca­da. O exe­cu­ti­vo ava­li­ou que Trump assu­mi­rá a pre­si­dên­cia de um país que apre­sen­ta sinais de cres­ci­men­to econô­mi­co, com pers­pec­ti­va de aumen­to de ren­da e inves­ti­men­tos, o que é posi­ti­vo ao consumo.

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