Volta ao futuro - Digital Balde Branco

TENDÊNCIAS

Pedro Braga Arcuri 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

  Nos­sa rea­li­da­de é de aumen­to da popu­la­ção mun­di­al. Pro­teí­nas de ori­gem ani­mal cons­ti­tu­em ali­men­tos essen­ci­ais, des­ta­can­do-se o lei­te, com carac­te­rís­ti­cas nutri­ci­o­nais insuperáveis”

Volta ao futuro

Nos reba­nhos lei­tei­ros naci­o­nais ain­da não che­ga­mos ao pata­mar de 90% das fême­as lei­tei­ras inse­mi­na­das arti­fi­ci­al­men­te, como nos paí­ses indus­tri­a­li­za­dos. Porém, de 2019 a 2020, rela­tó­rio divul­ga­do pela Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Inse­mi­na­ção Arti­fi­ci­al (Asbia) infor­mou que o total de doses cole­ta­das alcan­çou 2.363.022, ante 1.739.568 doses do ano ante­ri­or. Isso repre­sen­ta 26,4% a mais, impres­si­o­nan­te para tão pou­co tem­po. Em par­te, esse resul­ta­do se deve a ações de par­ce­ri­as entre pre­fei­tu­ras, coo­pe­ra­ti­vas e alguns polí­ti­cos, que, por meio de emen­das par­la­men­ta­res, finan­ci­am trei­na­men­to, for­ne­ci­men­to de insu­mos e assis­tên­cia téc­ni­ca.

Foi um óti­mo cres­ci­men­to, mas temos ain­da mui­to o que avan­çar no lei­te, afi­nal, o Bra­sil já é cam­peão da inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al em gado de cor­te.

Veja­mos o caso da Índia. O orga­nis­mo esta­tal para o desen­vol­vi­men­to da pro­du­ção lei­tei­ra (NDDB, em inglês) infor­ma que aci­ma de 70 milhões de inse­mi­na­ções foram rea­li­za­das naque­le país em 2017. O cres­ci­men­to em 15 anos foi de 354%, isto é, de menos de 20 milhões de doses em 2002 para mais de 70 milhões, na últi­ma ava­li­a­ção. Na média entre Esta­dos, 30% do reba­nho lei­tei­ro indi­a­no rece­beu inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al. Algu­mas razões apre­sen­ta­das para esses resul­ta­dos nos dois gigan­tes­cos paí­ses têm seme­lhan­ças: res­tam algu­mas difi­cul­da­des na pres­ta­ção do ser­vi­ço e na manu­ten­ção dos insu­mos em regiões gran­des (pre­ços aces­sí­veis, abas­te­ci­men­to de nitro­gê­nio líqui­do, difi­cul­da­de de com­pra de insu­mos como palhe­tas, etc.), ou difi­cul­da­de para rea­li­zar trei­na­men­tos e, tam­bém, a exis­tên­cia de uma par­ce­la decres­cen­te dos pro­du­to­res que ain­da não está con­ven­ci­da da efi­cá­cia da téc­ni­ca. Tudo isso está mudan­do.

Com o cres­ci­men­to do mer­ca­do de sêmen para pro­du­ção de lei­te no Bra­sil, o que era uma tec­no­lo­gia do futu­ro há cer­ca de 100 anos, ou menos, vol­ta a ser futu­ro con­si­de­ran­do-se o aumen­to no seu uso e o apoio rece­bi­do por sta­kehol­ders, como os já cita­dos. A vol­ta ao futu­ro está asso­ci­a­da a mais tec­no­lo­gi­as, como sêmen sexa­do, sele­ção genô­mi­ca e sem esque­cer as tec­no­lo­gi­as digi­tais, como sen­so­res para detec­ção do cio e apli­ca­ti­vos que faci­li­tam a ges­tão do reba­nho.

Nos­sa rea­li­da­de é de aumen­to da popu­la­ção mun­di­al. Pro­teí­nas de ori­gem ani­mal cons­ti­tu­em ali­men­tos essen­ci­ais, des­ta­can­do-se o lei­te, com carac­te­rís­ti­cas nutri­ci­o­nais insu­pe­rá­veis. Por isso, o futu­ro é dos pro­du­to­res que oti­mi­za­rem seu sis­te­ma de pro­du­ção e o ade­qua­rem às deman­das dos con­su­mi­do­res. Para tan­to, o aumen­to da efi­ci­ên­cia repro­du­ti­va, via inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al, é essen­ci­al e pre­ci­sa ser fei­to com bios­se­gu­ri­da­de, boas prá­ti­cas de pro­du­ção e de saú­de ani­mal, evi­tan­do assim as pou­cas des­van­ta­gens des­sa tec­no­lo­gia, como a pos­si­bi­li­da­de de dis­se­mi­na­ção de vírus e bac­té­ri­as pelo sêmen, a per­da de diver­si­da­de gené­ti­ca e de fer­ti­li­da­de do reba­nho.

Como na tri­lo­gia de fil­mes de Hollywo­od, nos quais o excên­tri­co cien­tis­ta con­se­guia ir e vol­tar do futu­ro, o cres­cen­te uso da inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al nos reba­nhos lei­tei­ros bra­si­lei­ros é como uma vol­ta ao futu­ro. Ao con­trá­rio dos fil­mes, inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al não é uma inven­ci­o­ni­ce. Ao con­trá­rio, tem sóli­da his­tó­ria de resul­ta­dos na melho­ria gené­ti­ca e no aumen­to de sóli­dos do lei­te. Está garan­ti­da por uma indús­tria madu­ra, com logís­ti­ca melho­ra­da a cada dia para a dis­tri­bui­ção de mate­ri­al gené­ti­co de qua­li­da­de e insu­mos neces­sá­ri­os em mais de 75% do ter­ri­tó­rio naci­o­nal. Além dis­so, con­ta com o apoio de vári­os seto­res da cadeia. Essas são garan­ti­as que, vol­tan­do ao que foi futu­ro, no pas­sa­do, esta­re­mos nos apro­xi­man­do mais rapi­da­men­te de novos limi­a­res de aumen­to da pro­du­ção e da qua­li­da­de do lei­te brasileiro.

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